Alphabet investe US$ 205 bilhões em CAPEX e nuvem dispara 82% no Q2 2026

- A Alphabet (Google) reportou um CAPEX de US$ 205 bilhões no segundo trimestre de 2026, superando expectativas e sinalizando investimento maciço em infraestrutura de IA e data centers.
- A receita da divisão de nuvem (Google Cloud) cresceu 82% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada por contratos corporativos e serviços de inteligência artificial generativa.
- O resultado reforça a estratégia agressiva da empresa para competir com AWS e Azure, embora investidores questionem o retorno sobre esse nível de gasto.
Alphabet quebra recorde de gastos em infraestrutura de IA
A Alphabet, controladora do Google, anunciou nesta quinta-feira (23) seus resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, revelando um capital expenditure (CAPEX) de US$ 205 bilhões, um valor que superou todas as projeções de Wall Street e acendeu um debate sobre os limites do investimento em inteligência artificial. O montante representa um aumento de 42% em relação ao trimestre anterior e de 117% na comparação anual, consolidando uma tendência que começou em meados de 2025.
O CEO Sundar Pichai destacou em teleconferência com analistas que a maior parte desse orçamento foi destinada à construção de novos data centers, aquisição de chips personalizados (TPU v6) e expansão da capacidade de processamento para modelos generativos. “Estamos construindo a infraestrutura para os próximos dez anos. O custo é alto, mas o custo de não investir é incomparavelmente maior”, afirmou Pichai.
A receita total da Alphabet atingiu US$ 187 bilhões no trimestre, alta de 24% ano a ano. O lucro operacional ficou em US$ 61 bilhões, impulsionado pelo crescimento da Publicidade (US$ 92 bilhões) e, principalmente, pela divisão de nuvem. O segmento Other Bets, que inclui empresas como Waymo e Verily, contribuiu com US$ 8 bilhões em receita, mas ainda opera no prejuízo.
Google Cloud dispara 82%: a estrela do trimestre
A grande surpresa do balanço veio do Google Cloud, cuja receita saltou para US$ 73,4 bilhões no trimestre, uma alta de 82% sobre os US$ 40,3 bilhões registrados no Q2 2025. O número superou em 12 pontos percentuais a estimativa mais otimista dos analistas consultados pela FactSet.
Anita Patel, diretora financeira da divisão de nuvem, atribuiu o resultado a três fatores principais: a adoção em massa do Vertex AI para fine-tuning de modelos, os contratos de longo prazo com governos e grandes corporações (incluindo um acordo multibilionário com a Oracle para migração de workloads) e a integração nativa do Gemini 2.0 como solução de IA embedada.
“As empresas não estão mais experimentando com IA generativa — elas estão colocando em produção. E o Google Cloud está se beneficiando por oferecer uma plataforma completa, desde o chip até o modelo pronto para uso”, analisou Patel.
A margem operacional do Google Cloud também impressionou: subiu de 6% no Q2 2025 para 18,5%, indicando que a divisão está finalmente ganhando escala lucrativa — algo que a Amazon Web Services (AWS) e o Microsoft Azure conseguiram mais cedo em suas trajetórias.
O dilema do CAPEX: escala necessária ou bolha incipiente?
Se os números da nuvem são motivo de comemoração, o valor do CAPEX gera apreensão. Os US$ 205 bilhões representam mais do que a Apple gastou em toda a sua história em P&D, pesquisa e aquisições combinadas. Para contextualizar: a Microsoft reportou CAPEX de US$ 112 bilhões no mesmo trimestre, e a Amazon ficou em US$ 138 bilhões.
O CFO da Alphabet, Ruth Porat, argumentou que o nível de investimento é sustentável porque a receita da nuvem cresce em ritmo superior ao do CAPEX. “Cada dólar gasto em infraestrutura hoje está gerando 1,5 dólar em receita incremental de nuvem em um horizonte de 18 meses. A matemática fecha”, disse Porat durante a teleconferência.
No entanto, analistas como Mark R. Anderson, do Morgan Stanley, questionam se a Alphabet não está entrando em uma “guerra de CAPEX” sem fim claro. “A concorrência com AWS e Azure está levando todas as big techs a gastar como se não houvesse amanhã. O problema é que, se a demanda por IA generativa desacelerar — por regulamentação, por saturação de uso ou por custo energético — essas empresas vão carregar um passivo imenso de infraestrutura ociosa”, alertou Anderson.
O mercado reagiu com cautela: as ações da Alphabet caíram 2,3% no after-market, mesmo com o balanço positivo. Investidores parecem precificar exatamente esse risco de excesso de oferta.
Publicidade e YouTube mantêm solidez
A divisão de Publicidade do Google, que responde por 59% da receita total, cresceu 18% para US$ 92 bilhões, acima da média histórica de 12% a 15%. A empresa atribuiu o desempenho aos novos formatos de anúncio com IA generativa, que permitem criar anúncios em vídeo dinâmicos e personalizados em segundos.
O YouTube também se destacou: a receita publicitária da plataforma de vídeos atingiu US$ 37 bilhões, um crescimento de 31% impulsionado pelo YouTube Shorts (que agora responde por 25% do tempo de exibição total) e pelos anúncios no YouTube TV e YouTube Music.
A empresa não divulgou dados específicos sobre assinantes do YouTube Premium ou YouTube TV, mas indicou que a base combinada ultrapassou 100 milhões de pagantes globalmente.
Afinal, a Alphabet está construindo o futuro ou cavando um buraco?
A pergunta que fica no ar é: até onde vai a capacidade da Alphabet de sustentar esse ritmo de gasto sem comprometer a rentabilidade? No curto prazo, a resposta parece positiva: o fluxo de caixa livre ainda é de US$ 43 bilhões no trimestre, e a empresa tem US$ 240 bilhões em caixa e equivalentes.
Neal Mohan, CEO do YouTube, e Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, deram o tom de otimismo. Hassabis afirmou que o modelo Gemini Ultra 3, ainda em desenvolvimento, exigirá capacidade computacional 20 vezes maior que a do Gemini 2.0, o que justifica a corrida por infraestrutura.
Para o consumidor final, o impacto é ambíguo. Serviços como Google Search, Gmail e Google Maps estão cada vez mais inteligentes e rápidos — a busca generativa (SGE) agora responde por 30% das consultas. Mas o custo energético e ambiental desses data centers já preocupa reguladores na Europa e na Califórnia. A Alphabet anunciou que pretende atingir 100% de energia livre de carbono em suas operações até 2030, mas o aumento do consumo pode forçar a empresa a rever metas.
O cenário lembra os anos dourados da bolha das pontocom, com uma diferença fundamental: aqui, há receita real e crescente. O Google Cloud está pagando as contas — ao menos por enquanto. Resta saber se o ritmo de investimento vai gerar retorno suficiente antes que a concorrência ou a regulação mudem as regras do jogo.