Atraso no software biométrico da UE pode comprometer operações do Eurotunnel

- O sistema de entrada/saída da União Europeia (EES) enfrenta novo atraso devido a falhas no software de biometria, afetando diretamente a operadora do Eurotunnel, Getlink.
- A empresa alerta que o cronograma de implementação está comprometido, gerando incertezas sobre a data de lançamento do sistema que exigirá coleta de dados biométricos de viajantes.
- Passageiros que utilizam o túnel sob o Canal da Mancha podem enfrentar filas e atrasos adicionais caso o sistema não seja corrigido a tempo.
O problema de software que paralisou o EES
O tão aguardado Sistema de Entrada/Saída (EES) da União Europeia, que promete digitalizar o controle de fronteiras com coleta de dados biométricos, sofreu mais um revés. Desta vez, o problema está no software desenvolvido pela eu-LISA, a agência da UE para sistemas de TI de grande escala, que apresenta falhas na integração com os equipamentos biométricos da operadora do Eurotunnel, a Getlink. Fontes internas da empresa afirmam que o software não consegue processar corretamente as leituras de impressões digitais e reconhecimento facial em alta velocidade, gerando riscos de travamentos e filas quilométricas no terminal de Coquelles, na França.
A Getlink já havia alertado as autoridades europeias sobre a complexidade técnica de adaptar o EES a um ambiente de tráfego intenso como o do túnel, que transporta milhões de veículos e passageiros anualmente. O sistema exige que todos os viajantes não pertencentes ao Espaço Schengen – incluindo britânicos, após o Brexit – tenham seus dados biométricos registrados a cada entrada e saída. Com a falha de software, a operadora teme que a implantação, prevista para outubro de 2025, precise ser adiada novamente.
Getlink e o alerta para o caos operacional
O CEO da Getlink, Yann Leriche, não poupou críticas públicas. Em comunicado, ele afirmou que a empresa está "extremamente preocupada com os atrasos" e que o software "não está pronto para o horário nobre". A declaração ecoa o tom de frustração que vem crescendo entre as operadoras de transporte transfronteiriço, que precisam se adaptar a um sistema cujo cronograma já foi adiado três vezes desde 2022. A Getlink investiu pesadamente em novos equipamentos – câmeras de alta resolução, scanners de impressão digital e quiosques de autoatendimento –, mas sem o software funcional, todo o investimento corre o risco de ficar obsoleto.
O impacto operacional pode ser devastador. Durante os períodos de pico, como o verão europeu, o Eurotunnel chega a processar um veículo a cada poucos segundos. Qualquer lentidão no sistema biométrico pode gerar engarrafamentos que se estendem por quilômetros, afetando não apenas os passageiros, mas também o tráfego de caminhões de carga que dependem da travessia rápida. A Getlink já apresentou um plano de contingência que prevê a utilização de procedimentos manuais, mas isso implicaria em um aumento significativo de pessoal e em filas ainda maiores.
Impacto para os viajantes e o futuro da fronteira digital
Para os passageiros, o cenário é de incerteza. O EES foi concebido para automatizar a verificação de identidade, eliminando o carimbo manual de passaportes e acelerando a travessia. Com o atraso, quem viaja entre o Reino Unido e a França continuará dependendo do sistema antigo, que já enfrenta desafios com o aumento do fluxo de turistas. A falta de uma data clara para a entrada em vigor do EES também gera confusão: muitos viajantes já adquiriram passagens para o segundo semestre de 2025 sem saber se terão que passar por procedimentos extras.
A comissária europeia para Assuntos Internos, Ylva Johansson, reconheceu os atrasos, mas insistiu que a segurança não pode ser comprometida. "Preferimos um sistema que funcione perfeitamente alguns meses depois do que um que cause caos nas fronteiras", disse em entrevista recente. No entanto, críticos apontam que a eu-LISA já deveria ter realizado testes mais robustos antes de anunciar o cronograma. A situação expõe as fragilidades da União Europeia em implementar soluções tecnológicas de larga escala em um ambiente de fronteiras tão complexo.
O que dizem as autoridades europeias
A eu-LISA, por sua vez, afirmou que está trabalhando em uma correção para o software e que uma nova rodada de testes está prevista para as próximas semanas. A agência também destacou que o problema não afeta outros pontos de fronteira, como aeroportos, onde o EES já está em fase de implantação piloto. Mas a Getlink rebate, argumentando que o túnel é um caso único, com volume de veículos e necessidade de processamento em tempo real que nenhum aeroporto enfrenta. A operadora pediu que a Comissão Europeia intervenha diretamente para acelerar o desenvolvimento.
Enquanto isso, os governos do Reino Unido e da França monitoram a situação de perto. O secretário de Transportes britânico, Mark Harper, manifestou preocupação com possíveis impactos no comércio e no turismo, lembrando que o Eurotunnel é uma artéria vital para a economia da região. Já o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, defendeu a necessidade de manter o cronograma, mas admitiu que a prioridade é a segurança dos dados. O impasse coloca em xeque a credibilidade do projeto de fronteira inteligente da UE, que já consumiu bilhões de euros em investimentos.
Perspectivas e próximos passos
A expectativa é que a eu-LISA apresente um relatório detalhado sobre a correção do software até o final de março. Se o problema não for resolvido, a Getlink já sinalizou que pode solicitar judicialmente uma extensão formal do prazo. Enquanto a novela se arrasta, os viajantes continuam na espera – e as filas, no horizonte. Para quem planeja atravessar o Canal da Mancha em 2025, a dica é ficar atento às atualizações oficiais e, se possível, evitar os horários de pico.
A tecnologia biométrica é uma promessa de eficiência, mas a história do EES mostra que, sem um planejamento cuidadoso e testes rigorosos, a inovação pode se tornar um gargalo. O caso do Eurotunnel é um alerta para todo o setor de transporte transfronteiriço: a digitalização não é apenas uma questão de hardware, mas de software que funcione na prática, sob pressão real. A União Europeia terá que provar que é capaz de entregar o que prometeu, ou corre o risco de ver a confiança dos passageiros e das empresas evaporar.