tecma.tech
OfertasÚltimasIAProdutosGadgetsAppsSegurançaStartupsCiênciaGamesMercado
Voltar para a home
Negócios | IA

Deezer afirma que músicas geradas por IA já são maioria entre novos uploads na plataforma

R
Por Redação tecma.tech22 de julho de 20267 min de leitura
Deezer afirma que músicas geradas por IA já são maioria entre novos uploads na plataforma
  • A Deezer afirma que a maioria das novas músicas enviadas à plataforma já é gerada por inteligência artificial, segundo declaração do CEO.
  • A empresa alerta para o risco de saturação do catálogo com conteúdo de baixa qualidade, pressionando artistas humanos e o modelo de negócios do streaming.
  • A plataforma estuda medidas de moderação e rotulagem de faixas geradas por IA para preservar a curadoria musical e a remuneração dos criadores.

IA domina novos lançamentos e acende alerta na Deezer

O cenário da música digital mudou de forma mais radical do que muitos imaginavam. Em uma declaração que pegou o mercado de surpresa, o CEO da Deezer, Alexis Lanternier, revelou que mais da metade de todas as novas faixas enviadas atualmente à plataforma são geradas por inteligência artificial. O dado, compartilhado durante uma entrevista à agência de notícias AFP e repercutido pelo Tecnoblog (fonte original), coloca a gigante do streaming no centro de um debate urgente sobre autenticidade, qualidade e sustentabilidade econômica no mundo da música.

A afirmação não é um palpite. Lanternier baseou sua fala em dados reais de curadoria interna da plataforma. Segundo ele, o volume de uploads cresceu de forma exponencial nos últimos meses, impulsionado principalmente por ferramentas de geração musical que permitem a qualquer pessoa criar uma faixa completa em segundos. “A inteligência artificial generativa está produzindo música em uma escala que nunca vimos antes. Como plataforma, precisamos decidir se esse conteúdo é um ativo ou um passivo”, afirmou o executivo.

O fenômeno, no entanto, não é exclusivo da Deezer. Em abril de 2025, a Universal Music Group já havia solicitado que serviços de streaming bloqueassem tentativas de scraping de seus catálogos para treinar modelos de IA, e plataformas como Spotify e Apple Music também lidam com um crescimento anômalo de uploads de baixa qualidade. A diferença é a transparência da Deezer ao expor a gravidade do problema com números concretos.

O impacto no modelo de negócios e na curadoria de playlists

Para entender o tamanho do desafio, é preciso olhar para o motor financeiro do streaming. O modelo atual de repasse de royalties é baseado no market share: cada stream vale uma fração de centavo, e o bolo total é dividido entre todos os artistas proporcionalmente à quantidade de reproduções. Quando milhares de faixas geradas por IA, muitas vezes sem identidade artística, são adicionadas ao catálogo, elas diluem o valor de cada stream e reduzem a fatia destinada aos músicos humanos.

Lanternier não escondeu sua preocupação com essa dinâmica. “Se permitirmos que o conteúdo de IA inunde a plataforma sem nenhum tipo de triagem, corremos o risco de desestimular artistas reais e prejudicar a experiência do ouvinte”, disse. A Deezer começou a implementar um sistema de detecção automática de conteúdo gerado por IA, utilizando padrões acústicos e metadados para sinalizar faixas suspeitas. A ideia não é banir completamente essas músicas, mas aplicar uma rotulagem clara e, possivelmente, criar camadas distintas de curadoria.

Outra frente estratégica é o ajuste do algoritmo de recomendação. Em vez de simplesmente promover as músicas com maior taxa de engajamento (o que favoreceria playlists genéricas feitas por IA), a Deezer pretende dar peso extra a faixas com selo de “artista verificado”, similar ao que acontece em redes sociais. A medida visa preservar a descoberta musical orgânica e evitar que a inteligência artificial canibalize o espaço de artistas independentes.

Do lado do músico e do ouvinte: como a qualidade vira moeda de troca

Para o músico profissional, o anúncio de Lanternier soa como um alerta. Compositores, produtores e intérpretes reais passam a competir por atenção com uma oferta praticamente infinita de conteúdo sintético. Em muitos mercados, a saída tem sido buscar nichos de alta qualidade e construir comunidades engajadas, em vez de tentar viralizar em playlists genéricas. O CEO da Deezer endossa essa visão: “Acreditamos que, no longo prazo, o ouvinte valoriza a autenticidade. O desafio é garantir que essa autenticidade seja recompensada pelo sistema”.

Do ponto de vista do consumidor, a experiência de usar o streaming pode mudar. Se antes você podia confiar nas playlists editoriais da plataforma para descobrir novos sons, agora precisará de um olhar mais crítico. A Deezer planeja introduzir um selo visual nas faixas que forem detectadas como geradas por IA, permitindo que o ouvinte faça escolhas informadas. A iniciativa lembra o que já acontece em outras mídias, com as marcas d'água em imagens sintéticas, e busca evitar a confusão entre uma obra original e uma imitação algorítmica.

A empresa também estuda a possibilidade de oferecer uma camada premium de curadoria, onde playlists seriam montadas exclusivamente com artistas humanos verificados. Seria uma espécie de “selo de pureza” musical, que poderia se tornar um diferencial competitivo em um mar de catálogos inchados por conteúdo de IA.

O cenário regulatório e os próximos passos

Especialistas em direitos autorais e reguladores de tecnologia já estão de olho no movimento da Deezer. A Comissão Europeia vem discutindo a obrigatoriedade de rotulagem de conteúdos gerados por IA em plataformas digitais, e a declaração de Lanternier pode acelerar a criação de regras específicas para o setor musical. Nos Estados Unidos, a Copyright Office já recebeu pedidos para esclarecer se músicas criadas por IA podem ser registradas como obra protegida, e a posição da indústria é majoritariamente contrária ao direito autoral pleno para conteúdo totalmente sintético.

Alexis Lanternier deixou claro que a Deezer não quer repetir os erros das redes sociais, que demoraram a reagir à desinformação gerada por IA e só agiram quando o problema já estava fora de controle. “Preferimos agir agora, enquanto ainda podemos construir um ecossistema equilibrado entre inovação tecnológica e valorização artística”, afirmou.

Enquanto isso, o mercado observa com atenção a reação dos artistas e do público. Bandas como Foo Fighters e nomes como Noel Gallagher já criticaram publicamente o uso de IA na música, mas o movimento ainda não se traduziu em uma pressão coordenada sobre as plataformas. A Deezer aposta que a transparência e a implementação de filtros são o caminho mais curto para evitar uma crise reputacional e econômica.

Qual é o limite da criatividade algorítmica?

A ascensão da música gerada por IA não é apenas um problema logístico de catálogo. Ela levanta questões filosóficas sobre o que define uma obra musical verdadeiramente autoral. Se uma inteligência artificial pode compor uma melodia que emociona, essa emoção é real ou simulada? Para o ouvinte, importa mais a beleza da música em si ou a história de quem a criou?

Lanternier reconhece que não há resposta fácil. “Não somos contra a IA como ferramenta. Muitos artistas usam plugins de IA para melhorar suas produções. O problema é quando a IA substitui completamente o humano”, explicou. A fronteira entre ferramenta e produto final será o ponto central da política de curadoria da Deezer nos próximos meses.

A plataforma promete anunciar em breve um conjunto oficial de diretrizes para upload de conteúdo gerado por IA, incluindo prazos de revisão, critérios de aceitação e possíveis sanções para quem tentar burlar o sistema. A expectativa é que outras plataformas, como Spotify e Apple Music, sigam o mesmo caminho, forçando uma padronização do setor.

Seja como for, o recado de Alexis Lanternier é claro: a era de ouro do upload sem filtro acabou. O streaming musical entra agora em uma fase de seleção mais rigorosa, onde a qualidade e a autenticidade voltam a ser o principal ativo — ou, pelo menos, é o que a Deezer espera.

deezermusica-com-iainteligencia-artificial-generativastreaming-musicalroyaltiescuradoria-musicalalexis-lanternierdireitos-autoraismercado-da-musicatecnologia-e-cultura