Deezer alerta: músicas geradas por IA já são maioria entre novos uploads na plataforma

- O Deezer revelou que músicas criadas por inteligência artificial já representam mais da metade de todos os novos uploads recebidos pela plataforma.
- O CEO da empresa, Alexis Lanternier, afirmou que o crescimento exponencial de conteúdo sintético levanta alertas sobre qualidade e direitos autorais.
- A medida pressiona o setor de streaming a adotar filtros e políticas para distinguir obras humanas de produções automatizadas.
- Artistas e gravadoras temem que a enxurrada de músicas de IA canibalize a remuneração e a visibilidade de trabalhos originais.
O alerta do Deezer sobre o avanço da música sintética
O Deezer, uma das maiores plataformas de streaming de música do mundo, acendeu um sinal de alerta sobre o crescimento descontrolado de músicas geradas por inteligência artificial. Em comunicado divulgado nesta semana, a empresa afirmou que os uploads de faixas criadas por IA já ultrapassaram a marca de 50% do total de novas músicas enviadas diariamente. O número, que impressiona pelo volume, representa uma mudança radical no ecossistema musical e coloca em xeque o modelo de negócios das plataformas.
Segundo dados internos do Deezer, o percentual de músicas sintéticas subiu de menos de 5% no início de 2023 para mais de 50% em apenas dois anos. Alexis Lanternier, CEO global do Deezer, classificou o fenômeno como uma “explosão silenciosa” que exige respostas urgentes. “Não estamos falando de experimentos isolados ou de nicho. O volume de conteúdo gerado por modelos generativos já supera o que artistas humanos produzem em escala industrial”, afirmou o executivo em entrevista ao Tecnoblog.
A plataforma identificou que a maioria dessas músicas é produzida por ferramentas como Suno, Udio e outros softwares de geração de áudio baseados em inteligência artificial. Muitas delas são enviadas em lotes por contas automatizadas, com o objetivo de explorar sistemas de royalties e playlists algorítmicas. O Deezer estima que cerca de 70% dessas faixas nunca são ouvidas por humanos, mas ainda assim geram custos de armazenamento e processamento.
O impacto no ecossistema de streaming e nos artistas
A enxurrada de músicas de IA não afeta apenas os servidores do Deezer. Ela distorce as métricas de popularidade e prejudica a descoberta de novos talentos. Em um mercado onde o pagamento de royalties é baseado no número de streams, a proliferação de conteúdo sintético pode sufocar artistas independentes. “Se você é um músico que passa meses criando um álbum, concorrer com milhares de faixas geradas em segundos por IA é uma batalha injusta”, observa Anita Patel, analista da MIDiA Research, consultoria especializada em música digital.
O problema não é exclusivo do Deezer. Spotify e Apple Music também enfrentam ondas de uploads sintéticos, mas o Deezer foi o primeiro a divulgar dados concretos. A empresa afirma que, desde que implementou sistemas de detecção em 2024, conseguiu identificar com precisão mais de 95% das faixas geradas por IA. “A tecnologia de identificação já está madura, mas o desafio é decidir o que fazer com esse conteúdo”, explica Mathieu Harel, diretor de engenharia de dados do Deezer.
As gravadoras, por sua vez, pressionam por medidas mais rígidas. A Universal Music Group, por exemplo, já solicitou que plataformas removam músicas que imitam artistas protegidos por direitos autorais. O problema é que muitas faixas de IA são originais, ainda que de baixa qualidade, e não infringem diretamente a lei. “O direito autoral foi pensado para obras humanas. A IA está criando um vácuo legal”, afirma Luís Gustavo, especialista em propriedade intelectual do escritório Dannemann Siemsen.
As medidas da plataforma para conter a poluição de conteúdo
Diante do cenário, o Deezer anunciou uma série de ações para conter o que chama de “poluição de conteúdo”. A primeira delas é a criação de um selo de certificação para músicas produzidas exclusivamente por humanos, com verificação por meio de parcerias com gravadoras e distribuidoras. A segunda medida é a revisão do algoritmo de recomendação, que passará a priorizar faixas com selo humano em playlists editoriais e no feed de descoberta.
Além disso, a plataforma está testando um sistema de pagamento diferenciado: músicas de IA receberão royalties reduzidos em comparação às humanas. A proposta gerou polêmica. Alexis Lanternier defende que a medida é necessária para preservar a economia criativa. “Não queremos banir a IA, mas sim garantir que a criatividade humana não seja sufocada por um tsunami de conteúdo de baixa qualidade”, disse.
Outra frente é a moderação de uploads em massa. O Deezer passará a exigir que contas que enviem mais de 10 faixas por dia passem por uma verificação manual. A empresa também está desenvolvendo uma ferramenta de detecção em tempo real que identifica padrões típicos de geração por IA, como repetições excessivas e timbres artificiais.
Críticos apontam que as medidas podem ser facilmente contornadas. “Se você ajustar o prompt da IA para gerar músicas com pequenas variações, o detector pode falhar”, alerta Markus Weber, pesquisador de IA do Instituto Fraunhofer. Ainda assim, o Deezer acredita que a transparência é o caminho mais eficaz. “Se o usuário souber que aquela música foi feita por IA, ele pode decidir ouvir ou não. O problema é quando não há distinção”, argumenta Mathieu Harel.
O futuro da música em meio à inteligência artificial generativa
A revelação do Deezer coloca em perspectiva o futuro da indústria musical. Se metade dos novos lançamentos já é sintética, em breve a proporção pode chegar a 80% ou 90%. Plataformas menores, sem recursos para filtros robustos, podem se tornar depósitos de lixo digital. Por outro lado, a IA também democratiza a criação musical: pessoas sem conhecimento técnico podem compor trilhas para vídeos, jogos e projetos pessoais.
O debate sobre a remuneração justa de artistas humanos continua aberto. Organizações como a IFPI (International Federation of the Phonographic Industry) defendem um modelo de licenciamento obrigatório para treinamento de modelos de IA, similar ao que já existe para samples. A União Europeia estuda incluir a música gerada por IA na regulação de inteligência artificial, com exigências de transparência e rotulagem.
Enquanto isso, o Deezer se posiciona como um polo de resistência. “A música sempre foi uma expressão humana. Não podemos deixar que a tecnologia apague essa essência”, finaliza Alexis Lanternier. A pergunta que fica é: as outras plataformas seguirão o mesmo caminho ou abraçarão a avalanche de conteúdo sintético em nome do crescimento? O mercado assiste, e os próximos meses serão decisivos.