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EUA ameaçam sanções contra empresas chinesas que impulsionam modelos de IA

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Por Redação tecma.tech23 de julho de 20269 min de leitura
EUA ameaçam sanções contra empresas chinesas que impulsionam modelos de IA
  • O governo dos Estados Unidos intensifica a pressão sobre Pequim ao ameaçar sancionar companhias chinesas envolvidas no desenvolvimento de modelos avançados de inteligência artificial.
  • A medida, anunciada por autoridades do Departamento de Comércio, visa coibir violações de controles de exportação de chips e tecnologia semicondutora.
  • Empresas como Tencent, Baidu e Alibaba podem ser alvo das sanções, o que pode redesenhar o mapa global da corrida por IA generativa.
  • A ação americana amplia a guerra tecnológica bilateral e levanta dúvidas sobre a capacidade chinesa de manter seus avanços com recursos domésticos.

Escalada na guerra dos chips: sanções como ferramenta de contenção

O Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou nesta semana que está preparando um pacote de sanções contra empresas chinesas acusadas de desenvolver modelos de inteligência artificial usando tecnologia americana de forma irregular. A decisão representa mais um capítulo da disputa tecnológica entre as duas maiores economias do mundo e pode afetar diretamente o mercado global de IA generativa.

De acordo com documentos obtidos por veículos internacionais, a administração Biden quer mirar companhias que continuam a treinar grandes modelos de linguagem com chips avançados da NVIDIA e da AMD, mesmo após as restrições impostas em outubro de 2022 e ampliadas em 2023. O argumento é que esses modelos podem ter aplicações militares e de vigilância, o que justificaria a adoção de medidas coercitivas.

Matthew Axelrod, subsecretário do Departamento de Comércio para Segurança Industrial, afirmou em audiência no Congresso que “não vamos tolerar que entidades chinesas contornem nossas leis de exportação para treinar sistemas de IA que ameaçam nossa segurança nacional”. A fala deixa claro que o governo americano está disposto a usar todo o seu arsenal regulatório para frear o avanço chinês.

As sanções devem incluir restrições à venda de componentes semicondutores, software de design de chips e até mesmo acesso a serviços de nuvem americanos, como AWS e Azure, que são usados por startups chinesas para reduzir custos de infraestrutura. Caso sejam aplicadas, as penalidades podem inviabilizar projetos de empresas como SenseTime, Megvii e CloudWalk, que já estavam na lista negra do governo americano.

Quem está na mira: os gigantes da IA chinesa

Entre os alvos potenciais das sanções estão algumas das maiores empresas de tecnologia da China. A Baidu, dona do modelo Ernie Bot, tem investido pesado em IA generativa e já treina versões avançadas de seus algoritmos. A Alibaba, por sua vez, desenvolve o Tongyi Qianwen, um modelo multimodal que compete diretamente com o GPT-4 da OpenAI. Ambas adquiriram grandes lotes de chips H100 da NVIDIA antes da última rodada de restrições.

Já a Tencent, conhecida por seu ecossistema de jogos e redes sociais, também aparece na lista de empresas monitoradas. A empresa tem usado aceleradores gráficos para treinar modelos de recomendação e processamento de linguagem natural. O governo americano alega que esses modelos podem ser empregados em sistemas de censura e vigilância em massa, uma preocupação recorrente no discurso oficial.

Evan Feigenbaum, vice-presidente do Carnegie Endowment for International Peace, analisa que “a abordagem americana é agressiva, mas necessária para manter a liderança tecnológica. No entanto, ela pode ter o efeito colateral de acelerar a autossuficiência chinesa, como vimos com o desenvolvimento de chips próprios pela Huawei.” O especialista lembra que a Shanghai Microelectronics já está produzindo chips de 7 nm com equipamentos adaptados, o que mostra que as sanções nem sempre atingem o objetivo esperado.

Impactos no ecossistema global de IA

A ameaça de sanções não afeta apenas as empresas chinesas. Startups americanas que dependem de parcerias com fabricantes chineses de semicondutores para prototipagem rápida também podem sentir o impacto. Além disso, o mercado de nuvem global pode ser fragmentado, com provedores chineses como Alibaba Cloud e Tencent Cloud perdendo acesso a tecnologias americanas.

Para os usuários finais, o cenário é de incerteza. Modelos como o Qwen e o Ernie Bot podem ter sua evolução limitada, gerando lacunas na oferta de assistentes de IA em chinês e em outros idiomas asiáticos. Empresas brasileiras que usam APIs desses modelos para tradução e atendimento ao cliente podem precisar migrar para alternativas ocidentais, o que eleva custos.

O governo chinês já reagiu. O Ministério do Comércio da China classificou a medida como “intimidação tecnológica” e prometeu tomar contramedidas. Em nota oficial, Wang Shouwen, vice-ministro do Comércio, afirmou que “a China continuará a desenvolver sua indústria de IA de forma independente, com recursos próprios, e não se curvará a pressões externas”. Na prática, Pequim deve reforçar os investimentos em fundos soberanos para pesquisa em semicondutores e em alternativas ao ecossistema americano de software.

O que esperar dos próximos meses

As sanções ainda precisam ser formalizadas e podem levar semanas ou meses para entrar em vigor. O processo envolve análise de evidências de violação das regras de exportação, consultas a aliados europeus e asiáticos, e preparação de documentos legais. O Departamento de Comércio prometeu agir com celeridade, mas sem abrir mão de procedimentos que garantam a legalidade das medidas.

Enquanto isso, empresas chinesas correm para estocar chips e buscar parcerias com fornecedores de países não alinhados, como Singapura e Malásia. A NVIDIA, maior fornecedora de GPUs para IA, tenta equilibrar suas vendas globalmente, temendo perder um mercado que representa cerca de 20% de sua receita.

Andrew Ng, renomado pesquisador de IA e cofundador do Google Brain, alertou que “sanções excessivas podem desacelerar a inovação global e criar gargalos na cadeia de suprimentos. O ideal seria um acordo multilateral com regras claras e fiscalização conjunta.” A opinião de Ng reflete o sentimento de parte da comunidade científica, que vê com preocupação a militarização da tecnologia.

No Brasil, a situação serve de alerta para empresas que dependem de infraestrutura estrangeira. Especialistas recomendam diversificar fornecedores e investir em modelos abertos, como os da Meta (Llama) e da Mistral AI, que não estão sujeitos a sanções. A longo prazo, a corrida por soberania tecnológica pode favorecer países que desenvolvem seus próprios semicondutores para IA.

A escalada das sanções também abre espaço para um movimento de “desglobalização da IA”. Se antes a tendência era a colaboração transnacional, agora o foco está na fragmentação e na criação de padrões regionais. A Europa, com seu AI Act, e a China, com suas próprias regras de segurança, já sinalizam que a inteligência artificial será moldada por forças geopolíticas, e não apenas pela inovação.

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