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Europa: sistema biométrico EES ameaça causar caos no Eurotúnel, alerta Getlink

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Por Redação tecma.tech29 de julho de 20269 min de leitura
Europa: sistema biométrico EES ameaça causar caos no Eurotúnel, alerta Getlink
  • O novo sistema de entrada/saída da União Europeia (EES) exigirá biometria de todos os viajantes não pertencentes ao Espaço Schengen, incluindo os que atravessam o Canal da Mancha.
  • A Getlink, operadora do Eurotúnel, afirma que o processo pode gerar filas de até duas horas no terminal de Folkestone, afetando gravemente o fluxo de passageiros.
  • A implementação, prevista para outubro de 2024, está em risco devido a atrasos na infraestrutura tecnológica, e a empresa pede mais tempo para se adaptar.

A contagem regressiva para o EES e seus impactos no Canal da Mancha

O plano da União Europeia de implementar o Sistema de Entrada/Saída (EES, na sigla em inglês) – uma plataforma biométrica que registrará digitalmente a entrada e saída de viajantes de países terceiros – está prestes a se tornar um dos maiores gargalos logísticos da história do transporte ferroviário no continente. A Getlink, empresa responsável pela operação do Eurotúnel (o túnel sob o Canal da Mancha que liga o Reino Unido à França), disparou um alerta público: sem ajustes significativos na infraestrutura tecnológica dos terminais, os passageiros podem enfrentar filas de até duas horas para embarcar nos trens Eurostar e nos veículos que utilizam o serviço Le Shuttle.

O cerne do problema está na exigência de coleta de dados biométricos – impressões digitais e fotografia facial – para todos os viajantes que não são cidadãos do Espaço Schengen ou da UE. Isso inclui britânicos, americanos, canadenses, brasileiros e muitos outros. No terminal de Folkestone, no lado inglês, a Getlink precisará instalar dezenas de quiosques de autoatendimento e pistas de controle adicionais para realizar o cadastro inicial. Segundo John Keefe, diretor de relações públicas da Getlink, a empresa já solicitou à União Europeia um adiamento de pelo menos seis meses, argumentando que a data prevista para outubro de 2024 é inviável.

“Estamos falando de um volume de aproximadamente 20 mil passageiros por hora nos horários de pico”, afirmou Keefe em entrevista recente. “Cada pessoa precisará de cerca de 90 segundos para completar o registro biométrico na primeira vez. Se não houver quiosques suficientes, o acúmulo será instantâneo.” O alerta não é isolado: operadoras de portos e aeroportos em toda a Europa também expressaram preocupação, mas o Canal da Mancha apresenta um desafio único por sua natureza de transporte contínuo e de alta frequência.

Como o EES funciona e por que ele é tão problemático para trens e balsas

O EES foi concebido pela Comissão Europeia para substituir o carimbo manual de passaportes, criando um registro eletrônico centralizado que permita às autoridades saber exatamente quem está dentro do bloco e por quanto tempo. Na teoria, a ideia é moderna e eficiente: ao cruzar a fronteira, o viajante insere o passaporte em um leitor, posiciona o rosto diante de uma câmera e coloca os dedos em um scanner. Os dados são comparados com bancos de dados de segurança e, em segundos, a passagem é liberada ou negada.

Na prática, porém, o sistema enfrenta obstáculos técnicos e logísticos monumentais. Para aeroportos, o processo pode ser distribuído ao longo de várias horas de espera antes do embarque. Já para trens e balsas – especialmente no Eurotúnel, onde os passageiros chegam com pouca antecedência – o gargalo é dramático. A Getlink calcula que, para absorver o fluxo sem atrasos, seriam necessários pelo menos o dobro dos quiosques atualmente planejados. E não é só isso: a infraestrutura de TI precisa estar perfeitamente integrada aos sistemas da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex), o que ainda não aconteceu.

Outro ponto crítico é o fato de que o EES será lançado simultaneamente em todas as fronteiras externas da UE. Isso significa que qualquer falha sistêmica generalizada – como uma queda de servidor ou um bug de software – poderia paralisar terminais inteiros. A Getlink já realizou simulações com voluntários em Folkestone, e os resultados foram preocupantes: mesmo com um número reduzido de passageiros, o tempo médio de processamento foi muito superior ao necessário para manter a fluidez do serviço.

A corrida contra o tempo: atrasos no software e pressão política

O prazo de outubro já foi adiado duas vezes. Originalmente, o EES deveria entrar em operação em 2022, depois foi remarcado para maio de 2023, e agora para outubro de 2024. A razão principal é a complexidade do desenvolvimento do software central, que precisa ser capaz de lidar com milhões de transações biométricas em tempo real, com tolerância a falhas e proteção contra ataques cibernéticos. A contratante eu-LISA (agência da UE responsável por sistemas de TI de fronteiras) enfrentou problemas de integração entre os módulos de captura biométrica e os sistemas nacionais dos Estados-membros.

Em paralelo, a pressão política cresce. O governo britânico, que não faz parte da UE, tem negociado um período de transição mais flexível para os terminais do Canal da Mancha. No entanto, Bruxelas insiste que o calendário deve ser mantido para evitar precedentes. Ylva Johansson, comissária europeia para Assuntos Internos, já declarou que “a segurança das fronteiras não pode esperar”, mas reconheceu que “implementações suaves são preferíveis a implementações apressadas”.

A Getlink também aponta que o projeto de instalação dos quiosques em Folkestone está atrasado por problemas de fornecimento de componentes eletrônicos e pela burocracia de licenciamento. A empresa já começou a reformar uma área de 2.500 metros quadrados dentro do terminal para abrigar os equipamentos, mas o prazo é apertado.

O que os viajantes podem esperar e como se preparar

Para o passageiro comum, a recomendação é clara: chegar com pelo menos duas horas de antecedência se for usar o Eurotúnel a partir do final de 2024. A Getlink está desenvolvendo um aplicativo que permitirá o pré-registro biométrico em casa, mas a funcionalidade ainda não foi aprovada pelas autoridades europeias. Sem essa opção, todos os viajantes precisarão passar pelo procedimento presencial na primeira vez que entrarem no Espaço Schengen sob o novo sistema.

Uma vez registrado, o viajante será identificado apenas pela biometria nas viagens subsequentes, o que deve acelerar o processo. Mas a fase de implantação promete ser caótica. Associações de defesa do consumidor já criticam a falta de campanhas informativas claras. No Reino Unido, a Rail Delivery Group, que representa as operadoras ferroviárias, pediu que o governo britânico forneça mais orientação pública.

Além disso, o EES levanta questões de privacidade. Os dados biométricos serão armazenados em um banco de dados central por até três anos, com acesso por autoridades de fronteira e, em certos casos, por agências de aplicação da lei. Defensores da proteção de dados alertam para riscos de vazamentos e uso indevido.

O futuro do transporte fronteiriço na Europa

A implementação do EES é um marco na digitalização das fronteiras europeias, mas também expõe as fragilidades de sistemas projetados para aeroportos sendo aplicados a modais de transporte com características muito diferentes. O caso do Canal da Mancha é um teste decisivo: se a Getlink e a UE não conseguirem uma solução viável, outros terminais ferroviários e portos marítimos poderão enfrentar crises semelhantes.

Enquanto isso, a tecnologia avança. Empresas como a IDEMIA, especializada em biometria, propõem sistemas de reconhecimento facial em movimento (walk-through), que eliminariam a necessidade de paradas longas. Mas essas soluções ainda estão em fase experimental e precisam atender aos rigorosos padrões de precisão e segurança da UE.

Por ora, o relógio corre. Faltam menos de seis meses para a data oficial, e a Getlink deixa claro: sem uma extensão, o caos no terminal de Folkestone não será apenas uma possibilidade – será uma certeza.

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