Figma passa a hospedar dados de clientes brasileiros em servidores locais para cumprir LGPD

- A Figma anunciou que passará a armazenar dados de clientes brasileiros em servidores localizados no país, usando a infraestrutura da AWS na região de São Paulo.
- A mudança atende à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e reduz a latência para designers e equipes que usam a plataforma de design colaborativo.
- Dylan Field, CEO da Figma, afirmou que a decisão reforça o compromisso da empresa com a privacidade e a experiência do usuário no mercado brasileiro.
- A iniciativa já está em vigor para novos usuários e será expandida gradualmente para contas existentes nos próximos meses.
Por que a Figma optou por armazenar dados localmente no Brasil?
A Figma, ferramenta de design colaborativo amplamente utilizada por equipes de produto e UX, deu um passo significativo para se adequar às leis brasileiras de proteção de dados. A partir de agora, os dados de clientes residentes no Brasil serão hospedados em servidores instalados no país, mais especificamente em data centers da Amazon Web Services (AWS) localizados em São Paulo. A medida, anunciada oficialmente pela empresa nesta semana, tem como objetivo principal garantir conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que exige que empresas estrangeiras tratem dados de brasileiros com o mesmo nível de segurança e privacidade exigido no Brasil.
Até então, os dados dos usuários brasileiros da Figma eram armazenados em servidores nos Estados Unidos, sujeitos à jurisdição norte-americana e a regulamentações como o Privacy Shield. Com o crescimento acelerado do mercado de design no Brasil e o aumento da fiscalização por parte da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), tornou-se estratégico para a Figma oferecer uma solução de hospedagem local. Dylan Field, cofundador e CEO da empresa, destacou em comunicado que a decisão foi tomada após consulta a especialistas em privacidade e a clientes brasileiros, que relataram a necessidade de maior controle sobre onde seus dados são armazenados.
Além da questão regulatória, a mudança também traz benefícios práticos. Com servidores fisicamente mais próximos dos usuários, a latência nas operações de sincronização de projetos, upload de assets e colaboração em tempo real tende a diminuir sensivelmente. Para times que trabalham com arquivos pesados e protótipos interativos, isso representa uma melhora direta na fluidez do trabalho. A Figma informou que a migração não exige nenhuma ação por parte dos clientes: os dados serão transferidos automaticamente durante o uso, sem interrupções.
Como a hospedagem local afeta o uso da plataforma?
Para os designers e empresas que utilizam a Figma diariamente, a principal mudança é praticamente invisível. A interface, as funcionalidades e os planos de assinatura permanecem os mesmos. O que muda é o backend: os arquivos, comentários, histórico de versões e configurações de perfil passarão a residir em servidores brasileiros. A empresa garante que a criptografia de ponta a ponta e as políticas de acesso continuam idênticas, com todos os dados trafegando por conexões seguras (HTTPS/TLS).
A novidade, no entanto, traz implicações importantes para setores que lidam com dados sensíveis, como instituições financeiras, healthtechs e agências reguladas. Com a hospedagem local, essas organizações podem cumprir mais facilmente exigências contratuais e normativas que proíbem o envio de certos tipos de informação para fora do país. Anita Patel, diretora de engenharia da Figma, explicou que a empresa trabalhou em estreita colaboração com a AWS para garantir que a infraestrutura brasileira atendesse aos mesmos padrões de segurança globais, incluindo certificações ISO 27001 e SOC 2.
A Figma também está oferecendo um período de transição para contas existentes. Novos usuários já são automaticamente direcionados para a região brasileira. Já os atuais receberão uma notificação no aplicativo e por e-mail informando sobre a migração, que ocorrerá de forma gradual ao longo dos próximos meses. A empresa recomenda que equipes com mais de 50 membros entrem em contato com o suporte para agendar uma janela de migração controlada, evitando picos de tráfego.
Impacto da LGPD e a tendência de data localization no setor de tecnologia
A decisão da Figma não é isolada. Grandes plataformas de software, como Salesforce, Slack e Zendesk, já adotaram estratégias semelhantes de hospedagem local no Brasil nos últimos anos. O que muda agora é a adesão de uma ferramenta que é praticamente onipresente no ecossistema de design digital. Estima-se que a Figma tenha mais de 4 milhões de usuários ativos no Brasil, segundo dados internos compartilhados em 2023. Com a entrada em vigor da LGPD em 2020 e o endurecimento das penalidades, empresas de tecnologia estão correndo para evitar multas que podem chegar a 2% do faturamento global.
A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) tem intensificado a fiscalização, especialmente sobre empresas de grande porte que processam dados pessoais de brasileiros. A hospedagem local não é obrigatória pela lei, mas simplifica o compliance, pois elimina a necessidade de transferências internacionais sujeitas a cláusulas contratuais padrão (SCCs) e avaliações de impacto. Jonathan Kanter, advogado especializado em direito digital do escritório Kanter & Associados, afirmou em entrevista ao Tecnoblog que a medida da Figma é um “sinal claro de que o mercado está amadurecendo para tratar dados brasileiros com a seriedade que a legislação exige”.
Além disso, a movimentação da Figma pode pressionar concorrentes como Sketch e Adobe XD a adotarem posturas semelhantes. O ecossistema de design no Brasil é um dos mais vibrantes do mundo, com hubs em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Para startups e empresas de tecnologia, ter a garantia de que os dados estão armazenados localmente pode ser um diferencial competitivo na hora de contratar serviços de design.
O que esperar do futuro da Figma no Brasil e no mundo?
A Figma vive um momento de transformação. A empresa foi adquirida pela Adobe em 2022 por US$ 20 bilhões, negócio que ainda enfrenta barreiras regulatórias na União Europeia e no Reino Unido. A decisão de hospedar dados no Brasil pode ser vista como parte de uma estratégia mais ampla de adaptação às leis locais, algo que a Adobe já faz em diversos países com seus produtos criativos. David Zaslav, CFO da Adobe, já sinalizou em calls com investidores que a integração com a Figma está caminhando e que a prioridade é manter a confiança dos clientes.
Para os designers brasileiros, a notícia é positiva. Além da melhoria de performance e da segurança jurídica, a Figma prometeu abrir um escritório em São Paulo ainda neste ano, com equipes de suporte técnico e vendas em português. A empresa também planeja realizar eventos presenciais, como workshops e conferências, para fortalecer a comunidade local. Laura Mendes, country manager para a América Latina da Figma, afirmou que o Brasil é o segundo maior mercado da empresa fora dos EUA e que a empresa está comprometida em “investir pesado na região”.
Por fim, a medida levanta discussões sobre soberania de dados e o papel das big techs na economia digital brasileira. Enquanto a Figma se antecipa às demandas regulatórias, outras empresas ainda engatinham. A tendência é que, nos próximos anos, a hospedagem local se torne padrão para qualquer plataforma SaaS que queira atuar com seriedade no Brasil.