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França aprova lei que proíbe redes sociais para menores de 15 anos sem autorização dos pais

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Por Redação tecma.tech28 de julho de 20268 min de leitura
França aprova lei que proíbe redes sociais para menores de 15 anos sem autorização dos pais
  • A França aprovou uma lei que proíbe menores de 15 anos de se cadastrarem em redes sociais sem autorização explícita dos pais.
  • A nova legislação foi proposta pelo deputado Laurent Marcangeli e contou com amplo apoio no parlamento francês.
  • Redes como Instagram, TikTok e Snapchat terão que implementar sistemas de verificação de idade robustos sob pena de multas milionárias.

Paris endurece regras para proteger adolescentes nas plataformas digitais

A França deu um passo ousado na regulação do ambiente digital ao aprovar uma lei que proíbe que menores de 15 anos criem contas em redes sociais sem o consentimento expresso dos pais ou responsáveis legais. A medida, aprovada pelo Parlamento francês no final de junho de 2023, representa uma das legislações mais rigorosas do mundo no controle do acesso de crianças e adolescentes a plataformas como Instagram, TikTok, Snapchat e Twitter (agora X). O texto foi proposto pelo deputado Laurent Marcangeli, do partido Horizontes, e recebeu apoio de diferentes espectros políticos, unindo preocupações sobre saúde mental, privacidade e segurança de jovens usuários.

A nova lei não se limita apenas à proibição do cadastro sem autorização. Ela exige que as plataformas implementem mecanismos técnicos de verificação de idade considerados "robustos" e que obtenham o consentimento dos pais de forma clara e documentada. Caso as empresas descumpram as regras, podem enfrentar multas que chegam a 1% do faturamento global anual, um valor que pode atingir centenas de milhões de euros no caso de gigantes como Meta e ByteDance. A França, que já havia aprovado leis voltadas à proteção de dados e ao combate ao discurso de ódio, agora se posiciona na vanguarda da regulação infantojuvenil no mundo digital.

A discussão sobre a idade mínima para uso de redes sociais não é nova, mas ganhou força nos últimos anos com o aumento de relatos de cyberbullying, exposição a conteúdo impróprio e impactos na saúde mental de adolescentes. Estudos recentes publicados por universidades francesas indicam que crianças que passam mais de três horas por dia em redes sociais têm maior propensão a desenvolver sintomas de ansiedade e depressão. A legislação francesa busca justamente criar uma barreira etária que force pais e plataformas a assumirem maior responsabilidade sobre a experiência online dos jovens.

O mecanismo de verificação de idade e o papel dos pais

Um dos pontos mais debatidos durante a tramitação do projeto foi a viabilidade técnica da verificação de idade sem comprometer a privacidade dos usuários. A lei determina que as plataformas deverão implementar sistemas que confirmem a idade do usuário no momento do cadastro, mas sem que isso exija o envio de documentos pessoais como RG ou passaporte para todos os casos. A solução defendida pelo governo francês envolve o uso de sistemas intermediários de verificação, nos quais o usuário pode comprovar a idade por meio de credenciais digitais fornecidas por terceiros confiáveis (como bancos ou operadoras de telefonia) sem que os dados sensíveis sejam compartilhados diretamente com as redes sociais.

Para menores de 15 anos, a autorização parental deverá ser obtida por meio de um processo controlado. A lei prevê que os pais possam autorizar o cadastro por meio de um sistema que valide a relação parental, que pode incluir desde o uso de cartão de crédito até a confirmação por videochamada ou documento oficial. Esse modelo já é adotado por algumas plataformas de jogos e por serviços de streaming que possuem restrições de conteúdo adulto. O desafio, segundo especialistas, é garantir que o processo não se torne tão burocrático a ponto de inviabilizar o acesso legítimo, nem tão frágil a ponto de ser facilmente burlado por adolescentes.

A deputada Aurore Bergé, relatora do projeto na Assembleia Nacional, defendeu que a lei equilibra proteção e liberdade. "Não estamos proibindo que jovens acessem as redes sociais. Estamos criando uma camada de responsabilidade compartilhada entre as plataformas e as famílias", afirmou durante o debate. A França também quer que o modelo sirva de inspiração para uma futura regulamentação em nível europeu, já que a União Europeia discute atualmente o Digital Services Act (DSA) e medidas específicas para proteção de menores.

Reação das plataformas e desafios de implementação

A reação das grandes empresas de tecnologia não foi imediata, mas nos bastidores o ceticismo é grande. Associações do setor, como a CCIA (Computer and Communications Industry Association), argumentam que a verificação de idade obrigatória pode levar a um aumento da coleta de dados pessoais e, paradoxalmente, a uma redução da privacidade dos adolescentes. A França, no entanto, sustenta que as plataformas já coletam uma quantidade massiva de dados e que a verificação de idade pode ser feita de forma anonimizada, sem armazenamento prolongado das informações.

O TikTok, plataforma extremamente popular entre adolescentes franceses, declarou em nota que está comprometido com a segurança dos jovens usuários e que já oferece ferramentas de controle parental. "Acreditamos que a melhor abordagem é a combinação de ferramentas de segurança, educação digital e diálogo entre pais e filhos", afirmou a empresa. Já a Meta, dona do Instagram e do Facebook, informou que está analisando o texto da lei e que buscará adaptar suas políticas de verificação de idade para atender aos requisitos franceses. O Snapchat, que há anos oferece o Snapchat Family Center, também afirmou que irá colaborar com as autoridades para garantir a conformidade.

O maior desafio prático, no entanto, será a implementação dos sistemas de verificação de idade em escala. Especialistas em segurança digital apontam que jovens muitas vezes obtêm documentos falsos ou usam contas de parentes para burlar sistemas de bloqueio. A lei francesa não prevê penalidades para os jovens ou para os pais que permitirem que os filhos usem as redes sem autorização, mas sim para as plataformas que não verificarem adequadamente a idade. Essa abordagem coloca a responsabilidade técnica e financeira sobre as empresas, o que pode acelerar o desenvolvimento de soluções mais eficazes.

Impactos na saúde mental e na educação digital

A aprovação da lei ocorre em meio a um debate global sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental de adolescentes. A França já havia criado, em 2018, uma comissão parlamentar para estudar o tema, que ouviu dezenas de especialistas, psicólogos e educadores. O relatório final, publicado em 2022, apontou que crianças entre 11 e 14 anos são especialmente vulneráveis a mecanismos de recompensa instantânea, como curtidas e seguidores, que podem levar a comportamentos compulsivos. A nova lei é, em parte, uma resposta direta a essas conclusões.

O governo francês também anunciou que irá investir em programas de educação digital nas escolas, ensinando crianças e pais a identificar riscos online, como phishing, golpes e exposição a conteúdo violento. A ideia é que a proibição por si só não é suficiente; é preciso criar uma cultura digital mais saudável. Jean-Noël Barrot, ministro delegado para a Transição Digital, disse que "a lei é o primeiro passo de um conjunto de medidas que inclui conscientização e ferramentas de suporte psicológico para jovens afetados por problemas relacionados ao uso excessivo de redes sociais".

Outra frente importante é a criação de um canal de denúncias para que os pais possam reportar plataformas que não cumpram a verificação de idade. A autoridade reguladora francesa, a Arcom, será responsável por fiscalizar a implementação e aplicar as multas. A experiência anterior da França com a regulação do streaming de vídeo, que levou a plataformas como Netflix e Amazon Prime a aumentar a produção local, mostra que o governo está disposto a ser proativo na regulação digital.

Perspectivas para o Brasil e o resto do mundo

A lei francesa não deve passar despercebida por outros países. No Brasil, a discussão sobre a idade mínima para uso de redes sociais e a proteção de dados de crianças e adolescentes já está na pauta do Congresso e do governo. O Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já estabelecem diretrizes, mas não há uma proibição específica para menores de idade. A experiência francesa pode servir de modelo ou de alerta para os legisladores brasileiros, que acompanham de perto os desdobramentos na Europa.

O fato de a França ser um dos países mais influentes da União Europeia dá ainda mais peso à decisão. Se a legislação for bem-sucedida na prática, é provável que outros países europeus adotem medidas semelhantes, criando um efeito dominó. A Comissão Europeia, que já avalia a criação de um "padrão europeu de verificação de idade", pode usar a lei francesa como referência. A longo prazo, a medida pode pressionar as plataformas globais a adotarem a verificação de idade como padrão, não apenas na França, mas em todo o mundo.

A França mostrou que é possível legislar com rigor sobre o tema, mesmo diante da resistência do setor de tecnologia. A efetividade da lei, no entanto, só poderá ser medida nos próximos meses, quando as plataformas começarem a implementar os sistemas de verificação e a Arcom iniciar as fiscalizações. Se a promessa de proteger os jovens sem sufocar a inovação se cumprir, a lei pode realmente se tornar um marco na história da regulação da internet.

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