CEO da Adecco defende que IA transforma cargos, não elimina empregos de forma geral

- CEO da multinacional de RH Denis Machuel afirmou que a inteligência artificial está remodelando funções, não extinguindo postos de trabalho em massa.
- A declaração foi feita durante o Web Summit Rio 2025, onde o executivo destacou a necessidade de requalificação profissional em vez de temor.
- A visão contraria o discurso apocalíptico sobre automação e abre espaço para um debate mais pragmático sobre o futuro do trabalho.
Adecco Enterra o Discurso Apocalíptico e Enxerga Reinvenção
O CEO global do grupo Adecco, Denis Machuel, usou o palco do Web Summit Rio 2025 para enterrar de vez o discurso de que a inteligência artificial vai simplesmente destruir milhões de empregos. Em uma conversa direta com jornalistas e executivos, ele foi categórico: o problema não é a tecnologia, mas a rigidez das empresas e dos profissionais em se adaptar. "A IA não está vindo para substituir as pessoas. Ela está vindo para substituir tarefas repetitivas e liberar o potencial humano para o que realmente importa", afirmou Machuel, sob olhares atentos de uma plateia majoritariamente composta por founders de startups e RHs de grandes corporações.
A fala do executivo chega em um momento em que o mercado de trabalho global vive uma ansiedade palpável. De um lado, relatórios do FMI e do Banco Mundial apontam que até 40% dos postos de trabalho podem ser impactados pela IA generativa. Do outro, a experiência prática de uma das maiores empresas de recrutamento e consultoria de RH do planeta sugere que o saldo final pode ser mais benigno do que o previsto. A Adecco, que lida com a recolocação de milhões de trabalhadores todos os anos, tem uma visão privilegiada do que está acontecendo no chão de fábrica e nos escritórios.
A Diferença Crucial Entre Tarefa e Cargo
Denis Machuel fez questão de traçar uma linha clara entre dois conceitos que, segundo ele, estão sendo confundidos no debate público. "Quando falamos que um emprego vai acabar, estamos sendo preguiçosos na análise. O que acaba é uma tarefa específica, um processo. O cargo, a função social e a necessidade de um ser humano tomando decisões continuam existindo", explicou ele. O executivo citou exemplos práticos: um caixa de banco que passa a atuar como consultor financeiro, um operador de call center que se torna analista de experiência do cliente, ou um tradutor que se especializa em treinar modelos de linguagem.
A visão de Machuel se alinha com o conceito de "job crafting" — a remodelagem ativa do cargo pelo próprio profissional. Ele defende que as empresas precisam parar de tratar a requalificação como um curso avulso e começar a enxergá-la como uma estratégia contínua de negócio. "O maior risco hoje não é a IA tomar o seu emprego. É o seu concorrente, que já está usando IA, tomar o seu mercado", provocou o CEO, arrancando risadas nervosas da plateia.
A declaração também ecoa estudos recentes do MIT e da McKinsey que indicam que, embora a automação possa deslocar entre 12 e 15 milhões de trabalhadores nos EUA até 2030, a maioria deles conseguirá ser realocada, desde que haja investimento em treinamento. A diferença, segundo Machuel, é que as empresas estão mais propensas a investir em software do que em pessoas. "É mais fácil comprar uma licença do ChatGPT do que desenvolver um programa de upskilling para 5 mil funcionários. Mas o retorno do treinamento é muito mais sustentável", disse.
O Papel da Liderança e da Cultura Organizacional
Durante a entrevista, Denis Machuel apontou um dos maiores gargalos para a transformação digital bem-sucedida: a resistência das lideranças. "Muitos gestores ainda veem a IA como uma ameaça ao próprio cargo. Eles têm medo de que a tecnologia exponha suas fraquezas. Por isso, sabotam a implementação", revelou. Para ele, o sucesso da adoção da IA passa, antes de tudo, por um trabalho de desconstrução cultural dentro das empresas.
A Adecco, que possui mais de 30 mil funcionários em 60 países, está aplicando essa receita em casa. A empresa já utiliza ferramentas de IA para triagem de currículos, match de vagas e até para prever quais profissionais têm maior probabilidade de sucesso em determinadas funções. O resultado, segundo Machuel, não foi a demissão de recrutadores, mas sim a transformação do papel deles. "Antes, um recrutador passava 70% do tempo procurando candidatos. Agora, ele passa 70% do tempo conversando com eles, entendendo suas ambições. A máquina faz a varredura; o humano faz a conexão."
Essa mudança de foco tem implicações diretas no modelo de negócios da Adecco. A empresa está investindo pesado em plataformas de aprendizado contínuo e em parcerias com startups de EdTech. A ideia é criar um ecossistema onde a requalificação não seja um evento pontual, mas uma jornada contínua, integrada ao dia a dia do trabalhador. "Estamos saindo do negócio de 'colocar pessoas em vagas' para o negócio de 'construir carreiras adaptáveis'. É uma mudança profunda", afirmou o executivo.
Requalificação Como Estratégia de Negócio, Não Como Caridade
Outro ponto forte da fala de Denis Machuel foi a crítica velada ao discurso de que a requalificação é uma obrigação moral das empresas. Para ele, a lógica é puramente capitalista. "Empresas que não requalificam seus funcionários estão cometendo um erro financeiro. Custa caro contratar gente nova. Custa caro perder conhecimento institucional. Treinar é mais barato do que substituir", argumentou. A declaração ressoa com os dados mais recentes do LinkedIn, que mostram que o custo de substituição de um funcionário pode chegar a 200% do salário anual em cargos de alta especialização.
O CEO também destacou que a requalificação não precisa ser genérica. Ele sugeriu que as empresas mapeiem as tarefas de baixo valor em cada cargo e invistam especificamente no treinamento das habilidades complementares à IA. "Não adianta ensinar Python para um advogado. Ensine ele a usar ferramentas de IA para revisar contratos. O valor está na aplicação, não no código." Essa abordagem pragmática parece estar dando resultado: a Adecco reportou um aumento de 27% na produtividade de equipes que passaram por programas de requalificação focada em IA.
A visão otimista de Machuel, no entanto, não ignora os perigos. Ele reconhece que o ritmo da mudança pode deixar para trás trabalhadores mais velhos ou menos conectados. "O sistema educacional tradicional não está preparado para a velocidade da IA. Precisamos de micro-credenciais, cursos de curta duração e reconhecimento de habilidades adquiridas na prática", disse. Para ele, o governo também tem um papel fundamental: criar incentivos fiscais para empresas que investem em treinamento e garantir uma rede de proteção social para quem for deslocado.
O Futuro do Trabalho é Híbrido Entre Humano e Máquina
Encerrando sua participação no Web Summit, Denis Machuel pintou um quadro que ele mesmo chamou de "realista e esperançoso". Para ele, o futuro do trabalho será inevitavelmente híbrido, com humanos e máquinas colaborando de forma cada vez mais integrada. "Não haverá um grande apocalipse de empregos. Haverá uma grande reinvenção de cargos. O profissional do futuro não será aquele que compete com a IA, mas aquele que sabe orquestrar a IA."
A mensagem do CEO da Adecco encontra eco em outros líderes do setor de tecnologia. Satya Nadella, CEO da Microsoft, já afirmou que a IA generativa será a "nova camada de interface" entre humanos e computadores. Jensen Huang, da Nvidia, disse que a IA não vai escrever código, mas sim "orquestrar código". A convergência de discursos sugere que o mercado está, finalmente, abandonando o pânico inicial em direção a uma abordagem mais madura e estratégica.
Para os profissionais brasileiros, o recado de Machuel é claro: o momento é de aprendizado e adaptação, não de desespero. "Se você está em uma função puramente repetitiva, precisa urgentemente adicionar valor. Se você já está em uma função analítica, precisa aprender a usar as ferramentas de IA para acelerar suas análises. Parar não é uma opção. Mas correr sem direção também não", concluiu o executivo, deixando no ar a sensação de que, no fim das contas, a IA pode ser o maior impulsionador de crescimento profissional que a geração atual já viu.