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Intel e AMD forneceram chips para a China de forma sinuosa: entenda o esquema

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Por Redação tecma.tech29 de julho de 20268 min de leitura
Intel e AMD forneceram chips para a China de forma sinuosa: entenda o esquema
  • A Intel e a AMD podem ter violado sanções dos EUA ao fornecer milhares de chips de servidor para clientes na China, ignorando restrições de exportação.
  • O suposto esquema, revelado em documentos internos obtidos pela imprensa, envolvia empresas de fachada e rotas indiretas para contornar barreiras impostas pelo governo americano.
  • As empresas negam irregularidades, mas o caso acende um alerta sobre a eficácia do controle de exportação de semicondutores.

Rotas tortuosas para burlar sanções

Documentos internos obtidos por jornalistas investigativos revelam que a Intel e a AMD podem ter fornecido milhares de chips de servidor para clientes na China ao longo dos últimos anos, driblando as sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos contra o país asiático. O suposto esquema, que teria movimentado dezenas de milhões de dólares, expõe a fragilidade dos mecanismos de fiscalização de exportação e coloca as duas gigantes dos semicondutores em uma posição delicada diante do governo americano.

De acordo com os documentos, as empresas norte-americanas teriam utilizado uma rede complexa de intermediários e empresas de fachada registradas em paraísos fiscais para esconder o destino final dos processadores. As remessas, que incluíam desde CPUs de última geração até modelos mais antigos, eram declaradas como destinadas a países como Cingapura, Malásia e Emirados Árabes Unidos. De lá, os chips eram reexportados para a China continental, muitas vezes com notas fiscais falsificadas e documentação alterada.

O período mais crítico do suposto esquema coincide com o agravamento das tensões comerciais entre Washington e Pequim, a partir de 2020. Na época, o governo Trump e, posteriormente, o governo Biden, impuseram uma série de restrições à venda de tecnologia de ponta para empresas chinesas, especialmente do setor de defesa e de telecomunicações. A Huawei foi a principal empresa na lista negra, mas as sanções também atingiram dezenas de outras companhias.

Um dos documentos, um contrato de fornecimento assinado entre Intel e uma empresa de logística de Cingapura, estipulava a entrega de 10 mil unidades do processador Xeon Scalable para um data center em Shenzhen. O contrato, no entanto, afirmava que o destino final era um cliente na Malásia. Investigadores apontam que o endereço do cliente malaio era, na verdade, um escritório virtual usado para redirecionar a carga.

O papel das empresas de fachada

A investigação aponta que a AMD utilizou um esquema semelhante, mas com uma estrutura mais pulverizada de intermediários. Ao contrário da Intel, que teria negociado diretamente com alguns compradores finais chineses, a AMD teria terceirizado toda a operação para uma empresa de trading baseada em Hong Kong. Essa empresa, identificada como StarMicro Pte. Ltd., recebia os processadores na unidade da AMD em Penang, na Malásia, e depois os despachava para clientes na China sem a devida licença de exportação.

Os documentos mostram que StarMicro Pte. Ltd. comprou mais de 50 mil CPUs da AMD entre 2019 e 2022. O volume de compras chamou a atenção dos próprios executivos da AMD em Taipé, que emitiram alertas internos sobre o risco de violação de sanções. Mesmo assim, as remessas continuaram. Um e-mail interno da AMD vazado para a imprensa mostra o gerente de compliance da empresa na Ásia questionando a legalidade das operações com a StarMicro e sendo ignorado pela diretoria.

A Intel, por sua vez, teria operado com pelo menos três empresas de fachada diferentes. Uma delas, a GlobalTech Logistics, com sede em Dubai, comprou US$ 120 milhões em processadores Intel entre 2020 e 2023. Os endereços fornecidos pela empresa eram caixas postais em Free Zones de Dubai, um mecanismo comum de lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Investigadores estimam que cerca de 70% dos chips vendidos para a GlobalTech Logistics tenham sido reexportados para a China.

O caso ganhou contornos de escândalo político quando se descobriu que alguns dos clientes finais chineses tinham vínculos com o exército chinês e o programa espacial do país. As Forças de Apoio Estratégico do Exército de Libertação Popular (PLA) foram identificadas como um dos destinos de parte dos servidores equipados com chips da Intel. O governo americano imediatamente classificou a situação como uma "grave violação" das sanções.

Negativas oficiais e investigações em curso

Tanto Intel quanto AMD emitiram notas oficiais negando veementemente qualquer irregularidade. Em comunicado, a Intel afirmou que tem "políticas robustas de compliance" e que realiza "auditorias rigorosas" em seus distribuidores. A empresa disse ainda que coopera "totalmente" com as investigações do governo americano. Já a AMD declarou que "cumpre rigorosamente todas as leis de exportação aplicáveis" e que está "revisando seus processos internos" para garantir que os controles sejam efetivos.

As empresas, no entanto, não explicaram como seus processadores chegaram a clientes chineses sancionados sem que houvesse conhecimento da matriz. A situação é ainda mais complicada porque a própria legislação americana atribui responsabilidade primária ao fabricante pelo destino final de seus produtos, mesmo quando vendidos a intermediários.

O Departamento de Comércio dos EUA e o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) já abriram investigações formais contra as duas companhias. Fontes do governo disseram à imprensa que as empresas podem enfrentar multas bilionárias se forem consideradas culpadas. As penalidades podem incluir a proibição de exportar para determinados mercados e até a inclusão em listas negras de contratos governamentais.

A revelação do esquema também expõe uma fragilidade estrutural no sistema de controle de exportações dos EUA. Embora as empresas sejam obrigadas a verificar a identidade de seus compradores e a obter licenças para produtos de uso dual (civil e militar), na prática, a fiscalização é insuficiente. Há poucos mecanismos de rastreamento em tempo real para saber onde uma carga está após sair de um porto americano.

O impacto no mercado de chips

O caso tem implicações profundas para a indústria global de semicondutores. As ações da Intel e da AMD caíram entre 3% e 5% após a divulgação dos documentos, refletindo o temor dos investidores com possíveis multas e restrições comerciais. Analistas de mercado estimam que as vendas para a China representam cerca de 25% da receita das duas empresas no segmento de chips de servidor.

Se as sanções forem aplicadas com rigor, a China pode ficar ainda mais isolada tecnologicamente, o que aceleraria seus esforços de desenvolvimento de chips próprios. O governo chinês já investiu pesado em empresas como a SMIC (Semiconductor Manufacturing International Corporation) para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira. No entanto, especialistas consideram que o país ainda está a pelo menos cinco anos de distância de produzir processadores competitivos com os da Intel e AMD.

O escândalo também reforça a necessidade de uma revisão profunda nas regras de exportação de tecnologia. O governo Biden já sinalizou a intenção de endurecer os controles e criar um sistema de monitoramento mais rigoroso. Uma proposta em discussão é exigir que as empresas de semicondutores instalem chips de rastreamento em todos os processadores exportados para mercados considerados de risco.

Enquanto isso, as investigações prosseguem. A expectativa é que os primeiros resultados sejam divulgados nos próximos meses, e que novas revelações surjam a partir dos documentos apreendidos. O caso já é visto como o maior escândalo de violação de sanções desde o caso da Huawei com a ZTE, que resultou em multas de mais de US$ 1 bilhão para a empresa chinesa de telecomunicações.

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