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Matrículas em Ciência da Computação caem pela primeira vez em uma década e a culpa é da IA

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Por Redação tecma.tech23 de julho de 20269 min de leitura
Matrículas em Ciência da Computação caem pela primeira vez em uma década — e a culpa é da IA
  • Pela primeira vez em mais de uma década, o número de alunos matriculados em cursos de Ciência da Computação nos EUA apresentou queda, revertendo uma tendência histórica de crescimento.
  • Dados recentes indicam que o fenômeno está diretamente ligado à ascensão de ferramentas de inteligência artificial generativa, que geram incerteza sobre o futuro da profissão de programador.
  • A pesquisa, conduzida pela Computing Research Association (CRA), aponta que muitos estudantes estão optando por carreiras mais ligadas à IA ou adiando a entrada na faculdade por medo de que a área perca relevância.

O primeiro revés em uma década de crescimento

A bolha do entusiasmo em torno da Ciência da Computação pode estar perdendo o ar. Pela primeira vez em mais de dez anos, as matrículas em cursos de graduação na área nos Estados Unidos apresentaram uma queda significativa. O dado, coletado e analisado pela Computing Research Association (CRA), mostra que o número de novos alunos de CS (Computer Science) caiu 6% no último ano letivo, uma inversão brusca de uma curva que só fazia subir desde 2012.

O fenômeno não está ligado a uma crise econômica ou a mudanças na demanda do mercado. A principal hipótese levantada pelos pesquisadores é que o avanço explosivo da inteligência artificial generativa — especialmente de modelos como o ChatGPT e o GitHub Copilot — está gerando uma onda de incerteza entre os jovens. Muitos potenciais estudantes passaram a questionar se vale a pena investir quatro anos de estudo em uma área que, segundo as manchetes, pode ser automatizada em breve.

Eric Roberts, professor emérito de Ciência da Computação na Universidade Stanford, foi um dos primeiros a soar o alarme em entrevista ao The New York Times. "Há uma percepção pública de que programar é uma habilidade que a IA já está tornando obsoleta. Os jovens são extremamente sensíveis a esses sinais de mercado", afirmou Roberts. "Mas o que a mídia não conta é que a CS está se transformando, não morrendo."

O declínio é ainda mais visível quando se observam os dados de matrículas em programas de mestrado e doutorado, que também apresentaram retração. O relatório da CRA analisou 207 departamentos de universidades americanas, incluindo instituições como MIT, Carnegie Mellon e Universidade da Califórnia em Berkeley, e constatou que a queda foi generalizada, afetando tanto faculdades públicas quanto privadas.

O medo da substituição pesa na escolha dos calouros

Para entender o que está por trás desse movimento, pesquisadores da CRA realizaram grupos focais com alunos do ensino médio e calouros universitários. O resultado foi surpreendente: a maioria dos entrevistados mencionou a inteligência artificial generativa como um fator decisivo em sua escolha de não seguir carreira na área de tecnologia.

Jill Smith, caloura de 18 anos que optou por cursar Administração em vez de Ciência da Computação na Universidade de Michigan, disse ao portal TechCrunch que "ver o ChatGPT escrevendo código em segundos fez eu me questionar se eu realmente teria emprego depois de me formar". O sentimento é compartilhado por muitos jovens que, diante de notícias sobre demissões em massa em big techs e a promessa de que a IA pode substituir programadores, preferiram buscar áreas consideradas mais "seguras".

A percepção, no entanto, pode ser equivocada. Hanna Wallach, diretora de pesquisa da Microsoft e especialista em IA, argumenta que o mercado de tecnologia não está encolhendo, mas se reconfigurando. "A demanda por profissionais que entendam de machine learning, de infraestrutura de dados e de segurança cibernética é maior do que nunca. O problema é que o estudante médio não enxerga essas oportunidades com clareza", disse Wallach durante a conferência SIGCSE 2024.

Dados do Departamento de Trabalho dos EUA mostram que a previsão de crescimento para empregos em desenvolvimento de software é de 25% até 2032, muito acima da média de outras profissões. Mas as funções estão mudando: o programador que apenas codifica rotinas simples está dando lugar ao engenheiro que sabe integrar sistemas de IA, treinar modelos e lidar com segurança de dados.

O mercado brasileiro também reflete essa tendência. Levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom) aponta que, mesmo com a crise global de demissões em big techs, a procura por profissionais especializados em IA no Brasil cresceu 40% no último ano. "O profissional do futuro não é aquele que apenas escreve código, mas o que sabe usar a IA para escrever código mais inteligente", afirma Ricardo Polato, CEO da empresa de recrutamento InfoJobs.

A ‘geração ChatGPT’ e o novo papel do programador

O fenômeno já está sendo chamado de "efeito ChatGPT" nas universidades. Andrej Karpathy, ex-diretor de IA da Tesla e um dos maiores nomes da área, publicou recentemente em seu blog uma reflexão contundente: "A programação está se tornando mais uma habilidade de curadoria e validação do que de criação. O programador do futuro vai parecer mais um editor de texto do que um engenheiro."

De fato, ferramentas como o GitHub Copilot, que já é usado por mais de 1,8 milhão de desenvolvedores, automatizam boa parte da escrita de código. Mas o que poucos mencionam é que essas ferramentas exigem alguém que entenda o problema, saiba formular o prompt correto, revise o código gerado e garanta que ele seja seguro e eficiente.

As universidades estão correndo para se adaptar. Muitas já incluíram disciplinas de "interação humano-IA" e "engenharia de prompt" em suas grades curriculares. A Universidade de Stanford, por exemplo, lançou um curso intitulado "CS 329: Machine Learning e o Futuro do Trabalho", que já é um dos mais concorridos da instituição. O MIT também reformulou seu currículo introdutório de programação, incorporando o uso de assistentes de IA desde o primeiro semestre.

Para David B. Yoffie, professor da Harvard Business School, a adaptação não é só uma questão curricular, mas de marketing. "As universidades precisam contar uma nova história para os jovens. Não a de que a programação vai acabar, mas a de que ela está se tornando uma disciplina ainda mais estratégica, combinada com outras áreas como biologia, economia e direito", afirmou Yoffie durante o painel "AI and Education" no SXSW 2024.

O que esperar do futuro das matrículas?

O relatório da CRA sugere que a queda nas matrículas pode ser um fenômeno temporário, mas os especialistas estão divididos. Robert Sedgewick, professor emérito de Princeton, acredita que a tendência pode se agravar nos próximos dois anos, até que o mercado mostre que ainda há necessidade de profissionais. "É um ciclo de desilusão. Os jovens veem a IA como mágica, mas depois descobrem que ela precisa de curadoria, de ética, de regulação. É aí que o profissional de computação vai ser ainda mais valorizado", disse Sedgewick.

Outro fator que pode influenciar é a própria regulação da IA. Com as novas leis europeias e os debates nos EUA e no Brasil sobre o uso de inteligência artificial, a demanda por especialistas que entendam tanto de computação quanto de direito e políticas públicas deve crescer. O programador do futuro pode ser, antes de tudo, um cientista social que sabe codificar.

A CRA recomenda que as universidades invistam em programas de mentoria e campanhas de comunicação mais agressivas para atrair jovens. "Não podemos deixar que a narrativa do 'a IA vai te substituir' domine o imaginário dos estudantes", alertou Mark Guzdial, coautor do estudo. "A história da tecnologia sempre foi de adaptação. O programador de 2030 não usará a linguagem C, mas usará algoritmos de deep learning. A base é a mesma."

Enquanto isso, os números do primeiro semestre de 2024 mostram que a recuperação ainda está distante. As matrículas em cursos de Ciência da Computação caíram 6% no período, com as maiores quedas sendo registradas em universidades públicas do meio-oeste americano. O alerta está dado: a inteligência artificial não está apenas mudando como programamos, mas também quem se torna programador.

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