Matrículas em ciência da computação nos EUA caem pela primeira vez na era da IA generativa

- As matrículas em cursos de ciência da computação nos Estados Unidos caíram 2,1% entre 2023 e 2024, a primeira retração em quase uma década.
- O relatório anual da Computing Research Association (CRA) com dados de mais de 200 instituições aponta o avanço da inteligência artificial generativa e a percepção de que o mercado de tecnologia está saturado como principais fatores.
- A queda, ainda que modesta, acende o alerta para uma possível crise de talentos a médio prazo, especialmente em áreas de segurança cibernética e engenharia de sistemas.
Estudantes fogem da computação: IA ou saturação?
Pela primeira vez em pelo menos oito anos, as matrículas em cursos de graduação e pós-graduação em ciência da computação nos Estados Unidos apresentaram queda. O dado veio do relatório anual da Computing Research Association (CRA), que compila informações de mais de 200 instituições de ensino americanas. Entre 2023 e 2024, a redução foi de 2,1% nas matrículas totais — um número que, embora pareça modesto, representa uma inversão de tendência histórica.
Desde o início da década de 2010, a área de computação vivia um boom de alunos, alimentado pela expansão das big techs, pelo crescimento do ecossistema de startups e pela promessa de salários altos. O pico aconteceu entre 2020 e 2022, quando a demanda por vagas dobrou em várias universidades. Agora, o cenário é outro. A CRA registrou que, no ciclo 2023-2024, o número de novos ingressantes em cursos de bacharelado caiu 3,3%, enquanto as matrículas em programas de mestrado recuaram 8,1%. Apenas os cursos de doutorado mantiveram estabilidade, com leve alta de 1,2%.
O relatório foi liderado por Jillian Burrows, pesquisadora da CRA, que destacou o contraste com os anos anteriores. "Estamos vendo um fenômeno que não esperávamos tão cedo. As taxas de matrícula vinham subindo de forma consistente desde 2015, e essa queda sinaliza uma mudança na percepção dos estudantes sobre o futuro da área", escreveu a equipe no documento.
O fantasma da inteligência artificial
A principal hipótese levantada pelo estudo é que a inteligência artificial generativa está transformando a visão que os jovens têm sobre a carreira em tecnologia. Ferramentas como ChatGPT, GitHub Copilot e Cursor mudaram a forma como código é escrito e como problemas de programação são resolvidos. Para muitos estudantes, a dúvida é: vale a pena investir anos em um diploma se a IA pode automatizar boa parte do trabalho?
Erik Brynjolfsson, economista do Stanford Institute for Human-Centered AI (HAI), comentou ao The Next Web que a preocupação não é infundada. "Estamos em um momento de redefinição. A IA generativa não substitui o engenheiro de software, mas elimina tarefas repetitivas que antes eram aprendidas nos primeiros anos de faculdade. Os alunos estão se perguntando se o currículo tradicional ainda é relevante", disse ele.
A pesquisa da CRA não é a única a apontar essa tendência. Um levantamento feito pela consultoria McKinsey no início de 2025 mostrou que 43% dos estudantes de ensino médio que planejavam cursar ciência da computação reconsideraram a decisão após testarem ferramentas de IA para programação. Além disso, o número de alunos que escolheram cursos como engenharia elétrica e matemática aplicada — áreas onde a IA é vista como complemento e não ameaça — cresceu 5% no mesmo período.
Outro fator que pesa é a saturação do mercado de tecnologia. Após anos de contratações agressivas, as grandes empresas de tecnologia (as chamadas Big Techs) iniciaram uma série de demissões em massa a partir de 2023. Google, Amazon, Microsoft e Meta cortaram dezenas de milhares de vagas, muitas delas em funções que exigiam diploma de computação. Para os recém-formados, a percepção de que o mercado está encolhendo desestimula a entrada em um curso de longa duração.
Consequências para a segurança cibernética
A queda nas matrículas não preocupa apenas as universidades. Ela acende um alerta especialmente crítico para a área de segurança cibernética. Historicamente, os cursos de ciência da computação são a principal porta de entrada para profissionais de cibersegurança. Com menos alunos ingressando, a escassez de talentos — que já é grave — pode se agravar.
Dados do ISC2, entidade que certifica profissionais de segurança, indicam que o déficit global de trabalhadores na área chega a 4,8 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, são cerca de 600 mil vagas não preenchidas. Anita Patel, vice-presidente de pesquisa do ISC2, afirmou que a tendência de queda nas matrículas precoces é alarmante. "A segurança cibernética exige uma base sólida em computação. Se as universidades estão formando menos cientistas da computação, teremos um gargalo ainda maior em funções de segurança nos próximos cinco a dez anos", explicou.
Além disso, a IA generativa tem sido usada tanto para atacar quanto para defender sistemas. Ferramentas de phishing assistidas por IA se tornaram mais sofisticadas, enquanto sistemas de defesa baseados em machine learning evoluem para detectar ameaças em tempo real. O problema é que ambos os lados precisam de profissionais qualificados para implementar essas soluções — e eles estão cada vez mais raros.
Jonathan Kanter, chefe da Divisão Antitruste do Departamento de Justiça dos EUA, também foi citado no relatório da CRA como uma voz de autoridade sobre o assunto, embora seu foco seja regulação de mercado. "A concentração de talentos em poucas empresas e a redução no interesse acadêmico podem criar um desequilíbrio que afeta toda a economia digital", disse ele durante uma audiência no Congresso em fevereiro.
O que as universidades estão fazendo?
Diante dos números, as instituições de ensino começam a se movimentar. A Universidade de Stanford, por exemplo, anunciou a reformulação de seu currículo introdutório de ciência da computação para incluir módulos obrigatórios sobre IA, ética algorítmica e colaboração humano-máquina. A ideia é mostrar que o profissional do futuro não será substituído pela IA, mas trabalhará com ela.
David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, também foi mencionado no contexto de uma palestra na Universidade de Columbia sobre o impacto da IA em carreiras criativas e técnicas. "A IA não vai tirar o seu emprego — mas um profissional que sabe usar IA vai", disse ele. A frase se tornou um mantra entre reitores de faculdades de tecnologia.
A própria CRA está promovendo um programa chamado "Computação + IA", que oferece subsídios para universidades criarem currículos híbridos. A iniciativa conta com apoio do Google e da Microsoft, que doaram US$ 5 milhões cada para financiar laboratórios e bolsas de estudo. O objetivo é atrair de volta os alunos que migraram para cursos correlatos, como ciência de dados e inteligência artificial aplicada.
Algumas universidades também estão apostando em programas de curta duração e certificações técnicas, como forma de atrair estudantes que não querem se comprometer com um bacharelado de quatro anos. A Northeastern University, por exemplo, lançou um programa de "Bacharelado Acelerado em Computação com Ênfase em IA Generativa", que pode ser concluído em três anos.
Um futuro incerto para o mercado de trabalho
A queda nas matrículas, por enquanto, não representa uma crise imediata. O estoque de profissionais formados nos últimos anos ainda é grande, e a demanda por desenvolvedores e engenheiros de software continua alta, embora menos frenética do que em 2021. Contudo, os efeitos de longo prazo podem ser significativos.
Andrej Karpathy, ex-diretor de IA da Tesla e cofundador da OpenAI, twittou sobre o assunto no início da semana: "Vejo muitos jovens me perguntando se devem fazer faculdade de computação. Minha resposta é: sim, mas procure uma universidade que já esteja atualizando o currículo. A base teórica continua sendo fundamental, mas você precisa aprender a usar as ferramentas de IA desde o primeiro semestre".
O mercado de trabalho, por sua vez, está se adaptando. Empresas como a Amazon e a Microsoft já anunciaram que estão contratando mais estagiários de áreas como filosofia e linguística para trabalhar em times de IA — um sinal de que a formação tradicional em computação pode não ser mais o único caminho para o setor de tecnologia.
O relatório da CRA será atualizado em julho de 2025, com os dados do primeiro semestre letivo. Até lá, educadores, governos e empresas acompanharão de perto se a tendência de queda se acentua ou se é apenas um ajuste temporário em um ciclo de hipercrescimento. O que está claro, porém, é que a computação — como conhecemos — está mudando, e a forma como ensinamos e aprendemos a programar também.
Enquanto isso, a recomendação dos especialistas é unânime: os alunos não devem abandonar a computação, mas sim se preparar para uma área que será profundamente transformada pela inteligência artificial. Como concluiu Erik Brynjolfsson em sua análise: "O profissional de computação do futuro não será aquele que escreve código linha por linha, mas aquele que projeta sistemas onde humanos e máquinas colaboram. Isso exige mais criatividade, mais ética e mais visão sistêmica — habilidades que uma boa universidade ainda pode ensinar".