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Ministério Público processa World ID por coleta de íris de brasileiros sem autorização

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Por Redação tecma.tech23 de julho de 20269 min de leitura
Ministério Público processa World ID por coleta de íris de brasileiros sem autorização
  • O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública contra o World ID (Worldcoin) por coletar dados biométricos de brasileiros sem consentimento adequado.
  • A ação alega violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e da Constituição, exigindo indenização de R$ 100 milhões.
  • O World ID, projeto cofundado por Sam Altman, usa escaneamento de íris para criar identidades digitais, mas enfrenta resistência de reguladores em vários países.

MPF aciona World ID por coleta de íris: entenda o caso

O Ministério Público Federal (MPF) no Distrito Federal protocolou uma ação civil pública contra o World ID, sistema de identificação digital baseado em escaneamento de íris, por coleta irregular de dados biométricos de cidadãos brasileiros. A ação, revelada com exclusividade pelo Tecnoblog, pede a suspensão imediata das atividades do projeto no país e indenização de R$ 100 milhões por danos morais coletivos.

O World ID é operado pela empresa Tools for Humanity, cofundada por Sam Altman, também criador da OpenAI. O sistema utiliza um dispositivo esférico chamado Orb para escanear a íris de voluntários em troca de criptomoedas (WLD). No Brasil, a captação de dados ocorreu em ao menos 11 estados, segundo o MPF, sem que a companhia obtivesse autorização explícita dos participantes ou informasse claramente os riscos envolvidos.

A ação do MPF sustenta que a coleta de dados biométricos — considerados sensíveis pela LGPD — exige consentimento específico e destacado, com finalidade determinada. “As informações colhidas pelo Orb podem ser usadas para rastrear indivíduos de forma única e indelével, representando risco à privacidade e à segurança dos brasileiros”, afirma o procurador da República responsável pelo caso, Frederico Paiva. Ele ressalta que a empresa não comprovou medidas adequadas de proteção contra vazamentos ou uso indevido dos dados.

LGPD e direitos fundamentais: o que o MPF alega

A peça judicial aponta cinco violações principais: ausência de consentimento livre e informado, falta de transparência sobre o tratamento dos dados, ausência de base legal para o processamento biométrico, risco de discriminação e impossibilidade de revogação do consentimento de forma eficaz. O MPF também questiona a transferência internacional dos dados, já que as informações são enviadas para servidores no exterior sem garantias equivalentes às da legislação brasileira.

A ação pede que a Justiça determine a interrupção imediata do cadastro de novos usuários e a exclusão de todos os dados já coletados de brasileiros. Em caso de descumprimento, a multa diária sugerida é de R$ 2 milhões. Além disso, o MPF requer que a empresa publique, em meios de grande circulação, esclarecimentos sobre os riscos da coleta biométrica e a ineficácia de eventuais medidas de anonimização.

O caso acende um alerta sobre o uso de biometria por empresas de tecnologia. Diferentemente de senhas, a íris não pode ser alterada. Uma vez comprometida, a exposição é permanente. Especialistas em segurança digital ouvidos pelo Tecnoblog destacam que a coleta em massa de dados biométricos por entidades privadas — especialmente com fins lucrativos — carece de regulamentação específica no país.

Como funciona o World ID e por que isso preocupa

O World ID foi lançado em 2023 como uma solução para provar que uma pessoa é humana e única em ambientes digitais, combatendo bots e identidades falsas. Para se cadastrar, o voluntário precisa comparecer a um ponto de coleta, onde o Orb escaneia a íris e gera um código hash irreversível — teoricamente anônimo. Em troca, o usuário recebe tokens WLD, uma criptomoeda que pode ser vendida ou trocada.

Na prática, porém, organizações de defesa da privacidade apontam que o sistema não é tão seguro quanto parece. A Electronic Frontier Foundation (EFF) e outras entidades internacionais já criticaram o projeto por coletar dados biométricos sem auditoria independente e por usar incentivos financeiros que distorcem o consentimento. No Brasil, o MPF considera que oferecer dinheiro em troca de dados sensíveis invalida a voluntariedade do consentimento, especialmente em regiões de baixa renda.

A Tools for Humanity argumenta que o código gerado a partir da íris é armazenado localmente e que o Orb não transmite imagens brutas. Em nota enviada ao Tecnoblog, a empresa afirmou que “cumpre rigorosamente todas as leis locais e coopera com as autoridades”. No entanto, investigações anteriores, como a da autoridade de proteção de dados da Baviera, Alemanha, já constataram que o processo de exclusão de dados é ineficaz e que a descrição do funcionamento do sistema é confusa para o usuário comum.

Reação das autoridades e precedentes internacionais

O processo brasileiro não é um caso isolado. O World ID enfrenta ações semelhantes no Quênia, Reino Unido, França e Espanha. Em julho de 2024, a autoridade reguladora de proteção de dados da Baviera (BayLDA) emitiu uma ordem determinando que a Tools for Humanity apagasse todos os dados coletados na Alemanha sob alegação de consentimento inválido. A empresa recorreu, mas a decisão sinaliza um endurecimento global contra o modelo de negócio.

No Brasil, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu um processo administrativo paralelo para apurar as práticas do World ID. A combinação das frentes administrativa e judicial pode resultar em multas milionárias e na proibição definitiva do serviço no país. Para o advogado especialista em direito digital Rafael Zanatta, do Data Privacy Brasil, a ação do MPF é “um marco na aplicação da LGPD contra empresas de tecnologia que tratam dados sensíveis com base em consentimento frágil”.

O que esperar daqui para frente

A ação civil pública ainda será analisada pela Justiça Federal do Distrito Federal, que pode conceder liminar para suspender imediatamente as atividades do World ID no Brasil. Caso a liminar seja negada, o processo seguirá para audiência de conciliação e, depois, para produção de provas periciais. A Tools for Humanity já contratou um escritório de advocacia brasileiro especializado em contencioso estratégico.

Para os brasileiros que já cederam seus dados ao World ID, a recomendação dos especialistas é monitorar possíveis vazamentos e considerar que a exclusão dos dados, mesmo que ordenada, pode não ser completa. Enquanto isso, o MPF promete fiscalizar o cumprimento de eventuais decisões judiciais e pedir a colaboração de plataformas como Google e Apple para bloquear o aplicativo World App nas lojas brasileiras, caso a empresa descumpra a ordem.

O caso reabre o debate sobre o papel do consentimento informado na era dos dados biométricos. Se a Justiça acolher os pedidos do MPF, o Brasil se tornará um dos primeiros países a impor uma condenação efetiva ao World ID — um precedente que pode influenciar regulamentações em toda a América Latina.

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