OpenAI e Anthropic batem recorde de gastos com lobby em meio à corrida regulatória da IA

- OpenAI e Anthropic registraram os maiores gastos com lobby de suas histórias no segundo trimestre de 2024, ultrapassando US$ 1,5 milhão cada.
- As empresas de inteligência artificial lideradas por Sam Altman e Dario Amodei estão intensificando a presença em Washington para moldar as leis de IA, copyright e segurança.
- O movimento reflete a urgência do setor em influenciar a agenda regulatória antes de novas normas federais nos Estados Unidos.
Recorde em Washington: o dinheiro da IA entra na política
OpenAI e Anthropic, duas das startups mais valiosas do setor de inteligência artificial, nunca gastaram tanto com lobby quanto nos três meses encerrados em junho de 2024. Dados do Senado dos EUA compilados pelo Center for Responsive Politics mostram que a OpenAI desembolsou US$ 1,6 milhão, enquanto a Anthropic chegou a US$ 1,5 milhão em atividades de lobby no segundo trimestre. Os números representam um salto de mais de 200% em relação ao trimestre anterior para ambas as empresas, sinalizando uma mudança estratégica profunda: da inovação pura para a arte da influência política.
O movimento não é isolado. A Microsoft, maior investidora da OpenAI, também aumentou seus gastos com lobby corporativo, mas o que chama a atenção é a velocidade com que as duas jovens empresas de IA estão aprendendo a navegar pelos corredores do poder. Sam Altman, CEO da OpenAI, já havia alertado que a regulamentação da IA seria um dos temas mais importantes do século. Agora ele está colocando dinheiro onde está a boca. A Anthropic, por sua vez, contratou uma das maiores firmas de lobby de Washington, a Brownstein Hyatt Farber & Schreck, para reforçar sua presença no Capitólio.
Por que o lobby disparou agora?
O segundo trimestre de 2024 foi marcado por uma enxurrada de propostas legislativas sobre inteligência artificial nos Estados Unidos. Desde o "AI Bill of Rights" da Casa Branca até projetos de lei bipartidários no Congresso que tratam de transparência, responsabilidade e segurança de modelos avançados, o governo americano está tentando criar um arcabouço regulatório para a tecnologia. Empresas como OpenAI e Anthropic querem garantir que essas regras não asstrangulem a inovação — e, ao mesmo tempo, que favoreçam seus próprios modelos de negócio.
Para Dario Amodei, CEO da Anthropic, o lobby não é apenas uma questão de defesa, mas também de ofensiva. A empresa tem defendido publicamente a criação de uma agência regulatória específica para IA, nos moldes da FDA ou da FAA. No entanto, quer que essa agência seja independente e focada em riscos catastróficos, algo que pode dar vantagem competitiva a quem investe pesado em segurança, como a própria Anthropic. A OpenAI, por outro lado, tem pressionado por regras mais flexíveis para modelos de uso geral, como o GPT-4, e contra exigências de licenciamento que possam frear sua capacidade de lançar produtos rapidamente.
A diferença de abordagens fica clara nos temas de lobby registrados. A OpenAI focou em questões de propriedade intelectual, especialmente o uso de dados protegidos por direitos autorais no treinamento de modelos, enquanto a Anthropic concentrou esforços em segurança de sistemas e limites de capacidade. Ambas, porém, uniram forças em tópicos como a regulação de deepfakes e a responsabilidade civil em casos de danos causados por IA.
O jogo de influência vai além do dinheiro
Embora os valores recordes chamem a atenção, especialistas apontam que o lobby de IA ainda é pequeno comparado ao de setores tradicionais como farmacêutico ou financeiro. A Pfizer, por exemplo, gastou US$ 3,7 milhões no mesmo período. O que impressiona é a velocidade de crescimento: em 2022, a OpenAI gastou menos de US$ 200 mil em lobby no ano inteiro. Agora, em um único trimestre, supera esse patamar com folga.
Matthew L. Jones, historiador de tecnologia da Universidade de Columbia, afirma que o movimento é natural. "Toda tecnologia disruptiva passa por um momento em que precisa se legitimar perante o Estado. A IA generativa está nesse ponto agora. O lobby não é apenas sobre dinheiro, mas sobre acesso. As empresas estão contratando ex-funcionários do governo, montando escritórios em Washington e participando de audiências. O discurso de 'inovação sem freios' está dando lugar a uma abordagem mais pragmática."
A OpenAI, por exemplo, contratou Chris Lehane, veterano da política democrata que trabalhou na Casa Branca de Bill Clinton, como vice-presidente de assuntos globais. A Anthropic trouxe Michael Leiter, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, para seu conselho consultivo. O trânsito em Washington é cada vez mais um ativo estratégico.
O que esperar dos próximos meses
Com as eleições presidenciais americanas se aproximando, o lobby de IA deve continuar aquecido. A expectativa é que as empresas intensifiquem os gastos no terceiro e quarto trimestres, especialmente se um novo marco regulatório ganhar tração no Congresso. A OpenAI já sinalizou que pretende aumentar sua equipe de relações governamentais em 50% até o final do ano.
Para os críticos, o risco é que o lobby excessivo leve a uma regulamentação capturada pelas grandes empresas, deixando startups menores e a academia de fora da mesa de negociações. Meredith Whittaker, presidente da Signal Foundation e conhecida crítica da concentração de poder na IA, disse em entrevista recente que "a corrida pelo lobby é um sinal de que as empresas sabem que a regulamentação virá e querem escrevê-la elas mesmas".
Por outro lado, defensores argumentam que a participação ativa das empresas no processo democrático é saudável. "Elas têm conhecimento técnico que os legisladores não têm. É melhor que estejam na mesa do que fora dela", avalia Ryan Calo, professor de direito da Universidade de Washington especializado em tecnologia.
O fato é que a conta de lobby de OpenAI e Anthropic continuará subindo. E, com ela, a influência dessas empresas no futuro da inteligência artificial — dentro e fora dos Estados Unidos. A pergunta que fica é se o dinheiro está comprando a regulamentação certa ou apenas adiando os debates mais difíceis sobre segurança, transparência e democracia.
A resposta, como sempre em Washington, virá nos próximos capítulos dessa novela legislativa.