Recorde de vendas de EVs na Europa impulsionado pelo avanço das marcas chinesas

- Vendas de veículos elétricos na Europa atingiram um novo recorde em 2024, impulsionadas principalmente por montadoras chinesas como BYD e MG.
- Dados da ACEA mostram que as marcas chinesas responderam por mais de 20% dos EVs vendidos no continente, superando marcas tradicionais alemãs e francesas.
- O crescimento acirra a concorrência e pressiona a União Europeia a revisar tarifas de importação enquanto consumidores buscam opções mais acessíveis.
Chineses conquistam fatia recorde do mercado europeu de elétricos
O mercado europeu de veículos elétricos (EVs) nunca viu um ritmo tão acelerado de crescimento. Dados divulgados pela Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) mostram que as vendas de EVs na União Europeia, Noruega, Suíça e Reino Unido atingiram 2,1 milhões de unidades no primeiro semestre de 2024, um aumento de 28% em relação ao mesmo período de 2023. O grande destaque do relatório é o avanço das montadoras chinesas, que juntas conquistaram 23% do mercado de EVs na região — um recorde histórico.
As marcas chinesas não são novidade na Europa, mas nunca haviam alcançado uma penetração tão expressiva. O grupo BYD, maior fabricante de EVs do mundo, registrou crescimento de 65% nas vendas europeias no primeiro semestre, impulsionado pelo sucesso do modelo Atto 3 e do hatch Dolphin. Já a MG (controlada pela estatal chinesa SAIC) viu suas vendas saltarem 52%, mantendo-se como a marca chinesa mais vendida no continente, com destaque para o MG4, que lidera o segmento de compactos elétricos.
Outras montadoras como NIO, XPeng e Great Wall Motors também ampliaram sua presença, especialmente nos mercados nórdico e alemão. A Polestar, marca sueca de capital chinês (controlada pela Geely), registrou aumento de 38% nas entregas, consolidando a posição da empresa como uma das favoritas entre consumidores premium.
Por que o consumidor europeu está comprando mais EVs chineses?
O fenômeno não é acidental. As fabricantes chinesas conseguiram oferecer veículos com especificações competitivas a preços significativamente menores que os concorrentes europeus. Um MG4, por exemplo, custa a partir de €28.000 na Alemanha, enquanto um Volkswagen ID.3, similar em tamanho e autonomia, parte de €33.000. Já o BYD Dolphin, com bateria LFP (fosfato de ferro-lítio) de 44,9 kWh, é vendido por €26.000 na França, tornando-se uma opção atrativa para quem busca eletrificação sem gastar uma fortuna.
A vantagem de custo vem da integração vertical das gigantes chinesas. A BYD fabrica suas próprias baterias e semicondutores, reduzindo custos intermediários. SAIC e Geely também possuem cadeias de suprimento altamente verticalizadas. Além disso, a capacidade de produção em massa na China permite economias de escala que as montadoras europeias, ainda ajustando suas linhas de produção para EVs, não conseguiram alcançar.
Outro fator importante é a variedade de modelos. Enquanto marcas tradicionais como Volkswagen, Stellantis e Renault ainda lutam para lançar uma gama completa de EVs acessíveis, as chinesas já oferecem desde hatches urbanos até SUVs grandes e elétricos esportivos. A NIO estreou recentemente seu sistema de troca de baterias na Noruega, permitindo que motoristas substituam a bateria descarregada em menos de cinco minutos.
“Os consumidores europeus estão cada vez mais dispostos a experimentar marcas chinesas, especialmente depois que a MG e a BYD conquistaram boas notas em testes de segurança do Euro NCAP”, afirmou Julia Poliscanova, analista da ONG Transport & Environment. “O preconceito contra carros chineses está desaparecendo rapidamente, principalmente entre compradores jovens que priorizam a relação custo-benefício.”
Reação da indústria europeia e o iminente aumento de tarifas
O avanço chinês acendeu um alerta em Bruxelas. Em junho de 2024, a Comissão Europeia anunciou a imposição de tarifas adicionais de até 38% sobre EVs importados da China, argumentando que o país asiático subsidia excessivamente sua indústria automotiva, distorcendo a concorrência. A medida, que deve entrar em vigor em outubro de 2024, visa proteger as montadoras europeias enquanto elas aceleram suas próprias estratégias de eletrificação.
A reação das montadoras chinesas foi rápida. BYD e SAIC anunciaram planos de construir fábricas na Hungria e na Turquia, respectivamente, para evitar as tarifas e se aproximar dos consumidores europeus. A BYD já iniciou a construção de uma unidade em Szeged, na Hungria, com capacidade inicial de 150 mil veículos por ano. A fábrica deverá começar a operar em 2026, gerando empregos locais e permitindo que a empresa venda veículos “made in EU” sem sobretaxas.
A Geely, por sua vez, anunciou uma parceria com a Renault para produzir EVs na Coreia do Sul — mas parte da produção poderá ser destinada à Europa, aproveitando acordos de livre comércio. Já a XPeng confirmou que estuda a instalação de uma fábrica na Alemanha ou na França, dependendo do avanço das negociações com o governo local.
Enquanto isso, montadoras europeias correm para reduzir custos e lançar modelos mais competitivos. A Volkswagen anunciou o ID.2, um hatch compacto com preço previsto de €25.000, que chega ao mercado em 2025. A Stellantis aposta no Citroën ë-C3, também na faixa dos €20.000, enquanto a Renault prepara o Renault 5 elétrico para competir diretamente com o MG4.
O impacto para o consumidor e o futuro do mercado
Embora as tarifas possam elevar o preço final dos EVs chineses importados, a entrada das marcas asiáticas já forçou uma redução geral nos preços. “A competição é saudável para o consumidor: mais opções e preços mais baixos”, comenta Hugo Repolho, consultor automotivo da BloombergNEF. “Mesmo com tarifas, a vantagem de custo das chinesas é tão grande que os carros ainda serão competitivos. A diferença pode cair de 30% para 15%, mas ainda será significativa.”
Os números recentes indicam que, mesmo com as tarifas iminentes, as encomendas de EVs chineses na Europa continuam crescendo. A BYD registrou fila de espera de até três meses para o modelo Seal, e a MG já vendeu mais de 10 mil unidades do MG4 na Alemanha apenas em abril de 2024.
Para os próximos anos, a tendência é de consolidação. As marcas chinesas que conseguirem estabelecer produção local e construir redes de concessionárias confiáveis — algo que a NIO e a XPeng ainda estão desenvolvendo — poderão se tornar players permanentes. A Polestar, que já tem produção na Europa (na fábrica da Geely na Bélgica), serve de modelo para essa integração.
O recorde de vendas de EVs na Europa, portanto, não é apenas uma notícia passageira: sinaliza a entrada definitiva da China como força dominante no mercado automotivo global. Para os europeus, significa mais opções, preços mais acessíveis e uma pressão para que a indústria local acorde e inove. Para os chineses, a Europa deixa de ser um mercado de exportação e se torna um território de investimento estratégico. A próxima década promete uma guerra de preços e tecnologia que só pode beneficiar os consumidores.