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O cabo de fibra óptica que liga o Brasil à Europa tem um kill switch? Entenda o plano de Rubio

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Por Redação tecma.tech28 de julho de 20269 min de leitura
O cabo de fibra óptica que liga o Brasil à Europa tem um kill switch? Entenda o plano de Rubio
  • Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, sugeriu a existência de um mecanismo de desligamento remoto em cabos submarinos de internet.
  • A declaração gerou polêmica sobre a segurança das infraestruturas críticas de comunicação global, como o cabo que liga o Brasil à Europa.
  • Especialistas contestam a viabilidade técnica de um "kill switch" generalizado, apontando riscos geopolíticos e a necessidade de protocolos de segurança mais rígidos.

Cabos submarinos no centro da disputa geopolítica

A declaração do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre a existência de um "kill switch" em cabos submarinos de internet reacendeu um debate técnico e geopolítico de grande relevância para países como o Brasil. Durante uma audiência no Senado americano, Rubio afirmou que os Estados Unidos teriam a capacidade de "desligar remotamente" cabos de fibra óptica que conectam continentes, em situações extremas de segurança nacional. A fala, feita em tom especulativo, foi rapidamente rebatida por engenheiros de redes e especialistas em infraestrutura digital.

O episódio ocorreu em um contexto de crescente tensão entre as grandes potências tecnológicas e de disputas por controle de dados. Rubio não especificou qual cabo ou rota estaria sujeito a esse mecanismo, mas a mera sugestão de que cabos submarinos — responsáveis por mais de 95% do tráfego global de dados — possam ser desligados remotamente gerou apreensão em governos e empresas de tecnologia ao redor do mundo.

A infraestrutura invisível que sustenta a internet

Os cabos submarinos são a espinha dorsal da internet moderna. Eles são feixes de fibras ópticas protegidos por múltiplas camadas de revestimento metálico e plástico, instalados no fundo do oceano. A rede global conta com mais de 450 cabos ativos, somando centenas de milhares de quilômetros de extensão. No caso do Brasil, o cabo Monet conecta o país diretamente a Boca Raton, na Flórida, enquanto o cabo Ella Link faz a ligação com a Europa, partindo do Rio de Janeiro até a cidade de Praia Grande, em Portugal.

Diferente de um roteador Wi-Fi que pode ser desligado por um aplicativo, um cabo submarino não possui uma "tomada" para ser desplugada. O desligamento físico de um cabo exige acesso às estações de ancoragem em terra — os chamados landing points — que são instalações de altíssima segurança operadas por consórcios de empresas de telecomunicações. Rubio não explicou como o suposto kill switch funcionaria, deixando margem para interpretações que vão desde um ataque cibernético coordenado até o acionamento de válvulas de contenção em pontos estratégicos da infraestrutura.

O que dizem os especialistas sobre o kill switch submarino

Engenheiros de redes e especialistas em segurança cibernética foram unânimes em afirmar que não existe um "botão vermelho" para desligar cabos submarinos. Gustavo de Freitas, analista de infraestrutura de redes e membro do NIC.br, explicou que "os cabos submarinos são projetados para serem passivos do ponto de vista de controle remoto. Eles não têm processadores ou mecanismos de desligamento embutidos. O que existe são equipamentos de amplificação óptica ao longo da rota, mas eles são alimentados eletricamente por cabos de energia dedicados e não são programáveis para desligar sob comando externo".

Freitas acrescenta que a forma mais realista de interromper o tráfego em um cabo submarino seria um ataque cibernético direcionado aos roteadores e switches nos data centers de ancoragem. "Mas isso não é desligar o cabo em si, é desligar o equipamento que o conecta à rede terrestre. E mesmo assim, a redundância é gigantesca. O tráfego seria simplesmente redirecionado para outras rotas", concluiu.

A fala de Rubio levanta ainda outra questão: a possibilidade de que empresas de tecnologia americanas — como Google, Meta e Microsoft — que possuem cabos submarinos próprios, possam ser forçadas a colaborar com governos em cenários de crise. Rita de Cássia, pesquisadora de direitos digitais da USP, aponta que "declarações como essa minam a confiança na neutralidade da infraestrutura de internet. Se um país pode unilateralmente desligar cabos, a soberania digital de outras nações fica comprometida".

O impacto para o Brasil e a América Latina

O Brasil é um dos países mais dependentes de cabos submarinos para sua conectividade internacional. A maior parte do tráfego de dados doméstico e corporativo — incluindo serviços de streaming, nuvem e transações financeiras — passa por esses cabos. A simples sugestão de que os EUA poderiam desligar remotamente essa conexão levanta alertas sobre segurança energética e digital.

Atualmente, o país conta com cerca de 20 cabos submarinos ativos, dos quais a maioria tem terminais nos EUA ou na Europa. A dependência de rotas que passam por território americano é um ponto de vulnerabilidade estratégica. Em 2021, o governo brasileiro iniciou estudos para a construção de um cabo submarino próprio, o chamado "cabo da soberania", que ligaria o Brasil à África e à Europa sem passar por estações de ancoragem nos EUA. O projeto, no entanto, esbarra em custos elevados e na complexidade técnica.

Rubio, em sua fala, não mencionou especificamente o Brasil, mas suas palavras ressoam no contexto da disputa global por controle de dados e infraestrutura. A possibilidade de um kill switch remoto, ainda que tecnicamente improvável, expõe a fragilidade de um sistema construído sobre acordos de confiança entre nações e corporações privadas.

O futuro da governança dos cabos submarinos

A controvérsia gerada por Marco Rubio reforça a urgência de um debate global sobre a governança das infraestruturas críticas de internet. Atualmente, a gestão de cabos submarinos é feita por consórcios privados, com pouca supervisão internacional. Organizações como a ITU (União Internacional de Telecomunicações) e a ICANN têm papel limitado nesse ecossistema, e a maioria das decisões é tomada por empresas americanas ou europeias.

Para André Lemos, professor de direito digital da FGV, "a declaração de Rubio é perigosa porque normaliza a ideia de que a internet pode ser controlada por um único país. Isso enfraquece os esforços multilaterais para criar uma internet mais descentralizada e resiliente". Ele defende que o Brasil e outros países emergentes invistam em rotas alternativas e em acordos de interconexão direta, reduzindo a dependência de hubs americanos.

Enquanto isso, a resposta oficial do governo brasileiro foi cautelosa. O Ministério das Relações Exteriores afirmou estar monitorando o assunto e que "a soberania digital do Brasil não está em risco". A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que está em contato com operadoras de cabos submarinos para avaliar a segurança das infraestruturas nacionais.

O debate sobre o kill switch, embora tenha sido alimentado por uma fala polêmica, coloca em perspectiva a verdadeira natureza da internet: uma rede física, vulnerável e profundamente entrelaçada com a geopolítica global. Para o brasileiro comum, a preocupação imediata é saber se suas chamadas, streams e transações bancárias continuarão funcionando. A resposta, por enquanto, é sim — mas o cenário futuro depende de decisões políticas e técnicas que estão sendo tomadas agora, em salas fechadas por continentes.

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