tecma.tech
OfertasÚltimasIAProdutosGadgetsAppsSegurançaStartupsCiênciaGamesMercado
Voltar para a home
Segurança | Tecnologia | Negócios

Túnel da Mancha terá entrada biométrica adiada? Entenda o impasse

R
Por Redação tecma.tech23 de julho de 20268 min de leitura
Túnel da Mancha terá entrada biométrica adiada? Entenda o impasse
  • A implementação do sistema de entrada biométrica (EES) no Túnel da Mancha, operado pela Getlink, pode sofrer novos atrasos.
  • A controvérsia surgiu após a Getlink, controladora do túnel, anunciar um software de reconhecimento facial que, na visão de autoridades, não atende aos requisitos de segurança da União Europeia.
  • O impasse coloca em xeque a promessa de agilidade no controle de fronteiras, podendo gerar filas e transtornos para milhões de viajantes entre França e Reino Unido.

Impasse no Canal: a promessa da biometria e o alerta da União Europeia

A promessa de uma travessia mais rápida e moderna pelo Túnel da Mancha, que liga a França ao Reino Unido, esbarrou em um obstáculo inesperado. A Getlink, empresa que opera o túnel, anunciou o desenvolvimento de um sistema de reconhecimento facial para agilizar a entrada de passageiros. Mas a euforia durou pouco. Autoridades da União Europeia (UE) emitiram um alerta: o software apresentado, segundo elas, não está em conformidade com as rigorosas normas de segurança do Sistema de Entrada/Saída (EES) do bloco.

O coração da discórdia é a implementação do EES, um sistema automatizado que substituirá o carimbo manual de passaportes por dados biométricos, como impressões digitais e reconhecimento facial. A ideia é que, com o cadastro prévio, viajantes frequentes cruzem a fronteira sem parar, apenas com uma rápida verificação. No entanto, a Comissão Europeia e a Agência Europeia de Segurança Operacional (EASA) questionaram se a tecnologia apresentada pela Getlink atende aos protocolos de proteção de dados e à interoperabilidade exigida.

O impasse coloca em risco o cronograma de implantação do sistema no Canal, que já enfrenta atrasos desde 2022. Para os milhões de passageiros que usam o Eurotúnel anualmente, a incerteza se traduz em possíveis filas e na manutenção de um processo de fronteira que, para muitos, é lento e burocrático. A expectativa era que o EES entrasse em operação plena em 2025, mas essa meta agora parece cada vez mais distante.

O software da Getlink e a resistência técnica

A Getlink defendeu seu sistema como uma solução inovadora, capaz de reduzir o tempo de travessia em até 50%. Em comunicados, a empresa, liderada pelo CEO Yann Leriche, afirmou que seu software de reconhecimento facial foi desenvolvido em parceria com a IDEMIA, gigante francesa de segurança digital, e que atende a todos os requisitos de proteção de dados. A promessa era de que os viajantes que optassem pelo cadastro biométrico prévio (o chamado "smart border") não precisariam mais sair do veículo durante a inspeção.

Do lado da União Europeia, o ceticismo é grande. Técnicos apontaram que o software, embora rápido, não oferece as mesmas garantias de segurança e privacidade que o sistema centralizado do EES. A principal preocupação é com a chamada "função de verificação secundária". Em situações de suspeita, o sistema da Getlink poderia, na visão dos reguladores, não conseguir rastrear corretamente as impressões digitais de um indivíduo, comprometendo a cadeia de prova em caso de incidentes ou investigações.

A Comissão Europeia também questionou a interoperabilidade. O EES foi desenhado para ser um banco de dados único e seguro, compartilhado entre todos os países-membros do Espaço Schengen. A proposta da Getlink, de operar um sistema próprio e integrado separadamente, levantou receios de que dados de viajantes pudessem vazar ou ser usados de forma indevida por terceiros, já que o túnel conecta diretamente o Reino Unido (não membro da UE) com a França.

A situação gerou uma reunião de emergência entre representantes da Getlink, autoridades francesas e a EU-Lisa (agência da UE para sistemas de TI de larga escala). A reunião, ocorrida no final de janeiro, terminou sem um acordo claro, mas com a promessa de que a Getlink apresentará uma nova versão do software nos próximos meses, com as correções exigidas.

As consequências para os milhões de passageiros

O Túnel da Mancha é uma das artérias mais movimentadas da Europa. Em 2023, cerca de 21 milhões de passageiros e 11 milhões de veículos cruzaram o canal utilizando o serviço da Getlink. A implementação do EES foi vista como uma solução para desafogar o tráfego e reduzir o tempo de espera, que em dias de pico pode chegar a mais de três horas.

O impasse técnico significa que, por enquanto, o "smart border" continuará sendo um projeto de teste, disponível apenas para um grupo seleto de viajantes que já aderiram ao programa piloto. Para a maioria, a rotina de parar o carro, apresentar documentos e aguardar a verificação manual continuará sendo a regra.

A Getlink já admitiu publicamente que, mesmo com a aprovação final, o sistema não estará pronto antes do verão europeu de 2025. Isso frustra as expectativas de quem esperava um processo mais fluido para as férias de julho e agosto. A empresa, no entanto, garante que está investindo pesado para adequar o software às exigências da UE. "Estamos comprometidos em oferecer uma travessia mais inteligente e segura. O diálogo com as autoridades é constante e construtivo", disse Yann Leriche em entrevista ao Financial Times.

Enquanto isso, as operadoras de turismo e as transportadoras rodoviárias começam a se preparar para o pior cenário: a manutenção das filas. As empresas de ônibus que fazem o trajeto Londres-Paris, por exemplo, já recomendaram que os passageiros cheguem ao terminal com pelo menos 90 minutos de antecedência para garantir o embarque.

Segurança cibernética e privacidade: a verdadeira batalha?

Por trás da briga sobre a tecnologia no Túnel da Mancha, esconde-se uma discussão mais ampla sobre segurança cibernética e privacidade de dados. O EES da União Europeia foi criado após os atentados de 2015 em Paris e Bruxelas, quando se percebeu que os sistemas manuscritos de controle de fronteira eram frágeis e suscetíveis a fraudes. A ideia era centralizar os dados biométricos de todos os viajantes não europeus que entram no Espaço Schengen, criando um banco de dados inviolável.

A Getlink, por outro lado, sempre defendeu que seu sistema de reconhecimento facial é mais rápido e menos intrusivo. A empresa argumenta que o cadastro biométrico deveria ser opcional e que o processamento local dos dados (no próprio túnel) seria mais seguro do que enviar as informações para um servidor centralizado. Esse ponto gerou um debate acalorado entre especialistas em TI e defensores da privacidade.

Para Alexandre Breteau, pesquisador de cibersegurança do Instituto de Tecnologia de Berlim, o modelo da Getlink levanta sim dúvidas. "Ao criar um banco de dados próprio, a empresa teria acesso a informações biométricas sensíveis de milhões de pessoas. Quem garante que esses dados não seriam usados para fins comerciais? Ou que não seriam alvo de um ataque hacker?", questionou em seu blog pessoal. Breteau lembra que a IDEMIA, parceira da Getlink, já foi alvo de violações de dados no passado.

Já do lado da União Europeia, a resposta é clara: o sistema centralizado, embora mais lento, é mais seguro e auditável. "Não podemos abrir exceções que fragilizem a proteção de dados de milhões de cidadãos em nome da velocidade", disse uma porta-voz da Comissão Europeia ao site Politico. O impasse, portanto, reflete um conflito de visões sobre como equilibrar inovação e segurança.

O futuro do Eurotúnel e a pressão política

Com o impasse técnico se arrastando, a pressão política começa a crescer. O governo francês, que tem uma participação indireta na Getlink (através da Caisse des Dépôts et Consignations), tenta mediar a situação. O ministro dos Transportes, Clément Beaune, já se reuniu com executivos da empresa e com representantes da UE para tentar destravar o processo.

O Reino Unido, por sua vez, observa tudo com cautela. Após o Brexit, o país não faz mais parte do Espaço Schengen, e o controle de fronteiras no lado britânico do túnel é de responsabilidade da Border Force do Reino Unido. Fontes do governo britânico disseram ao The Guardian que estão "confiantes" de que a tecnologia da Getlink atenderá aos padrões de segurança do país, mas que a palavra final cabe à UE.

A expectativa é de que uma decisão seja tomada até o final de 2025. Se a Getlink conseguir apresentar um software que atenda a todas as exigências, a biometria poderá entrar em operação no início de 2026. Caso contrário, a UE pode vetar o projeto e exigir que a empresa adote o sistema centralizado do EES, o que atrasaria ainda mais o processo.

Enquanto a novela não termina, os viajantes que cruzam o Canal da Mancha continuam reféns de um sistema manual do século XX. A promessa de uma fronteira digital e sem filas, ao menos por enquanto, ainda é um sonho distante, enterrado sob uma camada de protocolos de segurança, lobby empresarial e burocracia europeia.

tunel-da-manchagetlinkeesreconhecimento-facialbiometriauniao-europeiafronteira-inteligenteseguranca-ciberneticaprivacidade-de-dadosidemiayann-lerichespa