Fifa detecta 89 mil abusos online na Copa do Mundo, 13 vezes mais que em 2022
A Fifa revelou que o abuso online durante a fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 aumentou 13 vezes em relação a 2022, com 89 mil publicações ofensivas identificadas, das quais 11% foram motivadas por racismo, representando um aumento significativo na gravidade das agressões.
Publicado em 1 de jul. de 2026, 15:03

A Fifa divulgou nesta quarta-feira (1º) que seu Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS) detectou 89 mil publicações abusivas durante a fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, número que representa um aumento de 13 vezes em comparação com a edição de 2022, disputada no Catar. O sistema analisou mais de seis milhões de postagens e comentários, um salto de 33% em relação ao torneio anterior, impulsionado tanto pelo crescimento orgânico do uso de redes sociais quanto pela expansão do formato da competição, que passou a contar com 48 seleções. Esse monitoramento abrangeu todas as plataformas digitais relevantes, incluindo X (antigo Twitter), Instagram, Facebook, TikTok e YouTube, e visou proteger jogadores, técnicos, árbitros e demais profissionais envolvidos no Mundial. A entidade destacou que, além do volume absoluto, houve um agravamento qualitativo do conteúdo, com um aumento de 3% na proporção de ataques motivados por racismo em relação a 2022, o que foi classificado como 'aumento significativo no material objetivamente pior e mais ofensivo'. Esse cenário reflete uma tendência global de escalada do discurso de ódio online em eventos esportivos de grande porte, alimentada por algoritmos que priorizam engajamento e pela facilidade de anonimato nas plataformas.
O SMPS, criado pela Fifa em parceria com empresas especializadas em moderação digital, combina inteligência artificial, aprendizado de máquina e revisão humana para detectar, filtrar e bloquear conteúdo discriminatório, ameaçador ou difamatório. Durante a fase de grupos, a ferramenta automatizada ocultou automaticamente cerca de 181 mil comentários de ódio nas contas oficiais das seleções participantes, enquanto mais de dois milhões de postagens foram moderadas por spam, bots ou contas falsas — volume quatro vezes maior que o registrado em 2022. Do total de seis milhões de publicações analisadas, 225 mil foram selecionadas por critérios de severidade para uma avaliação humana aprofundada, resultando na confirmação de 89 mil abusos que geraram ações imediatas, como remoção, denúncia e bloqueio de usuários. A Fifa informou que cerca de mil contas foram encaminhadas para investigação adicional, muitas delas ligadas a redes coordenadas de propagação de ódio. Esse processo envolve a coleta de evidências forenses digitais para subsidiar potenciais processos judiciais, e mais de 100 casos já foram identificados como aptos para abertura de ações legais contra os responsáveis.
Entre as formas de abuso detectadas, o racismo representou 11% do total de mensagens ofensivas, seguido por ataques homofóbicos, misóginos e xenófobos, embora a Fifa não tenha divulgado a discriminação completa das categorias. A proporção de insultos raciais subiu 3% em relação ao torneio do Catar, o que, segundo a entidade, indica não apenas um aumento quantitativo, mas também uma radicalização do discurso, com uso mais frequente de termos explícitos e imagens violentas. Casos emblemáticos ilustram essa realidade: os jogadores holandeses Justin Kluivert, Quinten Timber e Crysencio Summerville foram alvo de insultos racistas nas redes sociais após desperdiçarem pênaltis na derrota para o Marrocos, episódio que gerou forte reação da federação neerlandesa e da própria Fifa. A exposição pública dos atletas a esse tipo de agressão tem consequências psicológicas graves, incluindo ansiedade, depressão e diminuição do desempenho, além de afastar talentos jovens do esporte. A Fifa, por meio do SMPS, passou a oferecer suporte psicológico imediato às vítimas e a acelerar a remoção de conteúdo nocivo, mas especialistas apontam que a moderação reativa ainda é insuficiente para proteger a saúde mental dos profissionais.
O formato expandido do Mundial, com 48 seleções e 104 partidas na fase de grupos, contribuiu diretamente para o aumento do volume de conteúdo analisado, já que mais jogos, mais atletas e mais torcedores geram exponencialmente mais interações digitais. A Fifa estima que o número de postagens relacionadas ao torneio cresceu cerca de 40% em relação a 2022, e a taxa de abusividade proporcional ao total de menções também aumentou, indicando um ambiente online mais tóxico. Além disso, a realização da Copa em três países-sede (Estados Unidos, Canadá e México) ampliou a diversidade linguística e cultural das interações, o que complexifica a moderação, pois insultos em idiomas menos monitorados, como aimará ou crioulo haitiano, podem passar despercebidos pelos filtros automáticos. O SMPS teve que se adaptar rapidamente, incorporando modelos de processamento de linguagem natural multilíngues e treinando moderadores humanos familiarizados com contextos regionais. Esse esforço, no entanto, não eliminou completamente as lacunas: cerca de 15% dos abusos identificados posteriormente pelos moderadores não haviam sido captados pela IA inicialmente, evidenciando a necessidade de aprimoramento contínuo.
A Fifa também anunciou que o SMPS está evoluindo para atuar como um braço de inteligência voltado para a persecução criminal, reunindo provas digitais que possam ser usadas por autoridades policiais em diferentes jurisdições. Mais de 100 casos foram selecionados por atenderem aos critérios legais para abertura de processos, incluindo ameaças de morte, incitação à violência e discurso de ódio qualificado. No entanto, a efetividade dessas ações esbarra em desafios como a falta de cooperação internacional entre plataformas de redes sociais (muitas sediadas nos EUA), a lentidão dos sistemas judiciais e a dificuldade de identificar autores que usam VPNs ou contas falsas. Especialistas em direito digital apontam que, embora a iniciativa da Fifa seja louvável, o combate ao abuso online em larga escala exige uma abordagem sistêmica que inclua regulação governamental (como o Digital Services Act da União Europeia), responsabilização das plataformas e educação digital dos torcedores. A entidade esportiva, por sua vez, planeja expandir o SMPS para outras competições, como a Copa do Mundo Feminina de 2027 e os torneios de base, e está desenvolvendo um sistema de alerta em tempo real para que jogadores possam denunciar abusos durante as partidas.
Do ponto de vista técnico, a moderação automatizada do SMPS utiliza uma combinação de modelos de classificação de texto baseados em transformers, análise de imagens por redes neurais convolucionais e detecção de padrões de comportamento de bots. Os filtros iniciais bloqueiam comentários com palavras-chave e contextos considerados ofensivos, mas a Fifa admite que há uma margem de erro de aproximadamente 5%, resultando em falsos positivos (comentários legítimos removidos) e falsos negativos (abusos não detectados). Para mitigar isso, o sistema aprende continuamente com as decisões dos moderadores humanos, refinando seus critérios. A capacidade de processamento da infraestrutura foi ampliada para lidar com picos de tráfego durante os jogos, quando o volume de postagens pode chegar a 50 mil por minuto. Apesar dos avanços, críticos apontam que a delegação da moderação a uma entidade privada levanta questões sobre censura e transparência, especialmente em um evento global onde a liberdade de expressão deve ser balanceada com a proteção contra o ódio.
O impacto do aumento do abuso online na Copa do Mundo de 2026 não se limita ao ambiente digital: ele reflete e intensifica tensões sociais existentes, como o racismo estrutural, a xenofobia e a discriminação de gênero, que são amplificadas pela paixão e pela competitividade do esporte. Jogadores negros, como os atacantes brasileiros Vinícius Júnior e Raphinha, que já foram alvos frequentes de insultos racistas na Europa, veem no ambiente online da Copa um novo campo de batalha. A Fifa tem pressionado as plataformas de redes sociais para que adotem medidas mais rigorosas, como verificação obrigatória de identidade e moderação pré-publicação, mas as empresas resistem, citando custos e complexidades técnicas. Enquanto isso, o SMPS funciona como um paliativo, reduzindo a visibilidade do ódio, mas não eliminando suas raízes. Organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, recomendam que a Fifa invista em campanhas educativas nos países-sede e nos canais oficiais do torneio, além de criar canais de denúncia acessíveis a torcedores que testemunharem abusos.
Para o futuro, a Fifa planeja integrar o SMPS com sistemas de inteligência artificial generativa capazes de prever padrões de abuso com base em dados históricos e em tempo real, permitindo uma ação preventiva, como a suspensão temporária de contas antes mesmo da postagem ofensiva. A entidade também estuda a criação de um 'passaporte digital' para torcedores, que registraria o histórico de comportamento online e poderia restringir o acesso a plataformas oficiais do torneio em caso de infrações repetidas. Essas propostas, no entanto, geram polêmica entre defensores da privacidade digital, que veem riscos de vigilância em massa e discriminação algorítmica. Em última análise, o combate ao abuso online na Copa do Mundo exige uma abordagem multifacetada, envolvendo tecnologia, regulação, educação e engajamento da sociedade civil. O relatório da Fifa serve como um alerta de que, sem ações concretas e coordenadas, o futebol, paixão global, pode se tornar um vetor de disseminação do ódio, manchando o espírito esportivo que deveria unir nações.